Quem sou eu

Minha foto
Meu nome é Renata, sou professora de francês desde 2011. Sou formada em Letras : Língua e literatura francesa UFRGS. Tenho experiência no exterior, fui aluna da Sorbonne - Université Paris IV e também do Intitut Privé Campus Langues - Paris, fiz o estágio de professores de francês do Cavilam em Vichy. Fui professora e coordenadora da Aliança Francesa de Caxias do Sul por 8 anos. Atualmente tenho minha própria escola on-line de francês chamada Renatatouille_francês onde ministro aulas particulares ou em grupo pela plataforma Zoom.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Karayôôô

          Depois da última conversação que teve na Maison du Cambodge, o Doug e eu saímos para almoçar na cafeteria da Cite Internationale com um polonês, uma chinesa e um argentino. A maioria das pessoas com a qual nos relacionamos aqui em Paris é de estrangeiros que estão de passagem, menos o polonês, que se apaixonou tanto pela cidade que pretende morar aqui pro resto da vida. Surgiu então o assunto de qual seria a melhor cidade do mundo para se morar. Os nossos amigos da mesa, que são muito mais viajados que nós, citaram várias cidades que poderiam entrar na lista. Como eu nunca morei em outro lugar além de Bento e Paris, votei em Paris.
            Passado o almoço, fomos para casa e achamos que seria interessante convidar o argentino Gonzalo e uma japonesa amiga minha, a Anna Konishi, para jantarem conosco. Liguei para os dois: o Gonzalo confirmou e a Anna avisou que chegaria mais tarde. Preparei uma massa com champignon e muito queijo, compramos uns vinhos bons e baratos e, às oito horas, o argentino chegou. Ele é um muito divertido e inteligente. Como estuda regência e composição e é chefe de orquestra em Córdoba, ficamos conversando sobre música numa mistura de francês, espanhol e português, mas que todos entendiam. Quando não sabíamos alguma palavra em francês, falávamos em português ou espanhol e tava tudo certo. Gonzalo deu a ideia de inventarmos as palavras que não sabíamos, um novo francês que serviria só pra nós. Achamos uma boa ideia e começamos a brincar com as palavras.  
           Já no final da janta chegou a minha amiga japonesa. Ela trouxe uma amiga e mais uma garrafa de vinho. Dali em diante nosso francês teve que melhorar e tivemos que abandonar de vez o portunhol. Ficamos até as duas da manhã conversando, rindo, bebendo vinho e escutando música. As japonesas gostam muito de bossa nova; a Moeko até solfejou “Wave”!
            Um assunto que sempre rola nas conversas entre estrangeiros é as diferenças entre as culturas. No Japão, por exemplo, as pessoas nunca se beijam ao se cumprimentarem. E o argentino achou estranho eu servir tomate como acompanhamento para a massa. Explicar o que era feijão foi outra dificuldade: tive que mostrar uma foto na internet. Mas aprendemos a contar até cinco em japonês, e descobrimos que as palavras issei, nissei e sansei vêm dos números 1-2-3 (ichi, ni, san).
       Por causa do nome do nosso amigo argentino, o Douglas começou a contar a história de São Gonçalo em francês: o porquê de o santo ser o padroeiro dos musicistas. Só que quando chegou na parte de explicar que as prostitutas passavam a noite toda escutando a música de São Gonçalo e por isso seu corpo ficava puro para Deus, a história parou, pois ele não sabia como se dizia prostituta em francês. Foi uma luta com as palavras até eu fazer todos entenderem dizendo que eram as “femmes de la vie”.
           A história parou pela metade e o argentino aproveitou a deixa para ensinar as japonesas a falar palavrões em português com sotaque espanhol. Elas, sem saber o que significavam, ficavam repetindo cinquenta vezes pra praticar a pronúncia. Ainda lembraram de um jingle de uma marca japonesa que parecia com uma palavra que elas recém tinham aprendido e começaram a cantar: Karayôôô... Karayôôô... Eu dizia pra elas não falarem aquilo, pois era muito feio. Elas botavam a mão na boca, mas logo esqueciam e começavam a cantar de novo.
         Depois de quatro garrafas de vinho, nossos amigos voltaram para a Maison du Japon, onde todos moram, inclusive o argentino. O Doug, que tinha bebido bastante, dormiu em seguida. Eu ainda fiquei um tempo acordada, lembrando dos assuntos da noite e rindo sozinha. Na próxima janta, a comida será japonesa, pois a Anna já fez o convite. Só espero que até lá o nosso francês melhore, assim o Douglas poderá terminar de contar a história de São Gonçalo.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Ícaro

            Na semana em que fomos para São Paulo fazer nosso visto pra França visitamos o Museu do Ipiranga. Num dos corredores estava exposta uma réplica em tamanho reduzido da estátua de Ícaro.  Ao lado dela, uma placa dizia que o monumento original era em homenagem a Santos Dumont e estava exposto numa praça com o nome do aviador na França. Em frente ao Ícaro de São Paulo eu prometi para mim mesma que, se tudo desse certo com o visto, eu iria visitar o monumento da França.
           Essa semana eu comecei os preparativos para cumprir a promessa. Procurei no Google Earth e descobri que a estátua fica dentro da Île de France, ao lado de Paris, numa comuna chamada Saint-Cloud. Como a estátua fica próxima ao Bois de Boulogne, desenhei o roteiro e propus ao Doug a aventura que nos renderia perto de dez quilômetros de caminhada. Como viram, um serviço parecido com o de descobrir o destino do Santo Graal.
           Equipamos a mochila com os mantimentos necessários - mapa, comida, água e máquina fotográfica - e saímos ainda de manhã ao encontro de Ícaro. Pegamos o RER até o Châtelet, depois a linha 1 do metrô até o Porte de Maillot, e o restante do trajeto fizemos a pé. Como o Bois de Boulogne é gigantesco, eu escolhi algumas coisas que seriam interessantes ver e  planejei cada trilha que iríamos seguir.
            A saída do metrô foi um pouco complicada, pois estávamos numa rótula, com poucas faixas de segurança.  Depois de uma maratona por sinaleiras e ruas movimentadas, encontramos a Allée de Longchamp, que é a que nos levaria até o bosque. Ali a paisagem já começou a mudar: em vez de prédios, muitas árvores, e, em vez de carros, pessoas passeando e pássaros de todo tipo sobrevoando o lugar. Numa das ruas perpendiculares, seguindo o meu mapa, entramos para procurar o Lac Inférieur. Esse segundo trajeto era mais bonito ainda que o primeiro, pois a rua era mais estreita, e as trilhas no meio do mato mais visíveis. Estávamos conversando sobre aquela beleza quando o Doug parou de falar ao ver o movimento de uns arbustos ao lado da trilha. Um coelho, disse ele. E lá fui eu como a Alice, atrás do coelho pelo mato. Porém, o veloz orelhudo me deixou chegar bem pertinho e ainda fez pose para a foto antes de sair apressado.
           Seguimos nosso percurso falando do coelho e fomos surpreendidos por uma das paisagens mais lindas que vi na vida: um lago gigante, cheio de cisnes, patos e outras aves coloridas. No meio do lago, tem uma ilha com um gramado uniforme, muitas flores e sendas. Além de tudo isso, o lago é cercado por muitas árvores, que, agora no outono, ganham cores vibrantes.
           Entre uma foto e outra, um simpático francês que estava correndo parou ao nosso lado e se ofereceu para bater uma foto. Aceitamos a gentileza e, depois do registro, ele pediu de onde éramos. “Nous sommes brésiliens”, respondemos. Ele abriu um sorrisão e disse: Oh, Brésil! E, já correndo de novo, ele olhou pra trás e gritou em inglês, que é a língua oficial dos franceses que falam com estrangeiros de qualquer parte: Congratulations for Dilma!  
           Agradecemos as felicitações e continuamos contornando o lago. Aí surgiu uma dúvida cruel. Tínhamos duas opções: atravessar o lago e, consequentemente, ficar ali o dia todo ou seguir meus planos até o Ícaro. Com uma insistência minha e com a promessa de que voltaríamos outro dia para ficar o dia inteiro no lago, seguimos adiante. Pegamos a Rue Grande Cascade e fomos em direção ao Parc Bagatelle, só que, ao contrário do nome, para entrar teríamos que pagar 5 euros cada um.

            Assim, optamos por não ficar nesse parque também. Não pelo dinheiro, mas porque valeria mais a pena retornar em outra ocasião e ficar mais tempo. Voltamos para a Allée de Longchamp e andamos até encontrarmos a cascata que era uma das paradas do meu roteiro. Subimos ao lado da cachoeira e, como sempre faço aqui em Paris quando avisto uma rua estreita, dediquei alguns minutos a ela, e acabei me enfiando por uma escada de pedras escorregadias.
            Eu nunca me arrependo. Dez degraus e estávamos dentro de uma gruta, e a cascata agora podia ser vista de dentro pra fora. Quando cheguei ao lugar que tinha descoberto, comecei a gargalhar sozinha fazendo a gruta tremer e ecoar minha felicidade, o que fez com que o Doug viesse ao meu encontro. Mesmo assim, ele demorou um pouco pra chegar, pois na descida a escada faz uma curva tão tênue, e a passagem é tão estreita que, se você não olhar direito, pensa que o trajeto termina por ali.
              
           Saímos da cascata inebriados com a sua beleza e contornamos o Hippodrome de Longchamp até achar as margens do Sena.  Andamos quase um quilômetro em paralelo ao charmoso rio e encontramos a Passarelle de l’Avre, que passa por cima do Sena e também de uma ruas da comuna de Saint-Cloud. A passarela de madeira é lindíssima e nos proporcionou mais umas vistas deslumbrantes. Quando estávamos no finalzinho da passarela, olhamos para trás; e o que vimos? Adivinhem! A Torre Eiffel! Paramos na hora para curtir o espetáculo visual: o Sena e as árvores se agitando com o vento e a torre imóvel e poderosa no horizonte.  
            Terminando o percurso da passarela, já estávamos fora de Paris, e encontramos umas ruas estreitas e graciosas cheias de casas que mais pareciam castelos, com traços de arquitetura alemã. E foi andando por aquelas ruas coloridas que avistei as asas do Ícaro. Chegando mais perto, pude vê-lo por inteiro, solitário no meio de uma pequena praça. Ainda ofegante pela caminhada de horas, não resisti aos seus braços abertos e lhe dei um abraço emocionado.
Valeu a pena encontrá-lo. Se não fosse por ele, talvez não tivéssemos visto todas aquelas maravilhas. Mas claro que meus mapas ajudaram, pois com eles não é preciso ter fio de Ariadne para não se perder no labirinto dos paradisíacos bosques de Paris.








 

 




 

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Les enfants

           Um fato curioso que aconteceu há alguns dias atrás, foi que minha mãe mandou por e-mail uma fotografia minha com menos de um ano de idade. Fiquei surpresa por recebê-la. Mas o mais surpreendente foi que, sem saber do e-mail que minha família tinha mandado, a irmã do Doug também enviou umas fotos antigas. Ficamos tentando achar uma razão para a coincidência. Por que nossas famílias estavam mandando aquelas fotos nossas de crianças? Será que é como eles nos veem?
           Não importa. Às vezes é como me sinto mesmo. Como um bebê maravilhado com as descobertas, vendo cores que nunca tinha visto e aprendendo a falar uma língua que antes parecia incompreensível.
          Para as mães corujas e para os amigos tiradores de sarro, aí vão as fotos:

Doug e Deise


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Procurando a Geração Perdida

           Logo que cheguei em Paris tive a ideia de pendurar o mapa da cidade num mural que tem no nosso quarto. Não somente pelo fato de admirar a cidade, mesmo quando estou em casa, mas também para grifar as ruas por onde passei. Toda vez que chego de um passeio pela cidade, pego minha destaca-texto verde e pinto as ruas que conheci no dia. Quando pendurei o mapa, ele era todo branco; agora já vai ficando cada vez mais colorido.  
           Essa semana eu estava a admirar o meu mapa e vi algumas ruas do Quartier Latin que ainda não tínhamos explorado. Fui pra internet e descobri que numa daquelas ruas tinham morado Hemingway e Joyce. Fiz o convite para o Douglas para irmos lá hoje, e ele, naturalmente, aceitou na hora. Então, combinamos de nos encontrar depois da minha aula de francês numa praça perto da Sorbonne. Chegamos quase ao mesmo tempo à praça combinada: de um lado, eu com minha colega tailandesa; de outro, o Douglas, que ia passando da praça sem vê-la.
           Eu já tinha desenhado meu mapa, pois as ruas de Paris não são perpendiculares umas às outras; elas fazem voltas, e é muito fácil se perder por aqui. Assim, seguindo meus desenhos, descemos a Rue de l”Estrapade e chegamos à Place de la Contrescarpe, que fica na Rue Mouffetard, uma praça no coração do Quartier Latin, rodeada de bares que, provavelmente, foram frequentados por figuras importantes que citarei mais adiante. Tem até uma música do Jacques Brel chamada “Place de la Contrescarpe” (http://www.jukebo.com/jacques-brel/clip,place-de-la-contrescarpe,3u3xf.html). Me despedi da minha amiga tailandesa, que havia nos acompanhado até encontrar uma estação de  metrô, e seguimos pela mesma rua “Mouffe” até encontrarmos a estreita Rue Descartes. Nessa, logo nos deparamos com a antiga casa de Verlaine, onde hoje funciona um restaurante.   
           Depois, seguimos pela Rue du Cardinal Lemoine e, quando chegamos ao número 71, encontramos a casa emprestada a James Joyce para terminar o livro “Ulisses”. Esse quartier é impressionante. Fiquei imaginando o Joyce subindo a rua concentrado ou a Piaf cantarolando “padam padam” e chutando umas latas que estavam no chão. Andamos mais um pouco e, no número 74, encontramos uma placa em homenagem a Hemingway. São exatamente aquelas ruas que o escritor cita no livro “Paris é uma Festa”, e estávamos ali, em frente à sua casa. Imaginem a nossa emoção de percorrer os caminhos feitos por toda a Geração Perdida! Inexplicável a sensação.
           Continuando a caminhada pelo Quartier, fizemos toda a Rue des Écoles, e meu mapa manual chegou ao fim. Começamos então a nos perder por Paris. Encontramos o parque da École Polytechnique e, mais adiante, a estátua de Montaigne com seu pé dourado para as pessoas fazerem seus pedidos. E lá fomos nós também incomodar o gênio pra realizar nossos desejos. Pra terminar o passeio, com o sol recolhendo seus últimos raios, chegamos às margens do Sena, que é o melhor lugar para ver as cores do outono. Além disso, os bares nos arredores estão cada vez mais cheios e nós estamos cada vez mais apaixonados pela cidade. Montaigne, tenho mais um pedido: faça com que esta festa demore para acabar!



Rue Descartes
  
 

  



 


 






quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O Rato

             Nesse final de semana que passou recebemos mais uma visita. Minha prima e seu marido, que estavam fazendo um tour pela Itália, passaram o final de semana aqui em Paris. Marcamos um encontro no sábado, às cinco horas da tarde em frente à Notre Dame. O que eu não esperava é que, com aquele frio, tivesse tanta gente por lá. Mesmo assim, minha prima, com seu olhar além do alcance, nos encontrou em menos de cinco minutos.
            Abraços e beijos e fomos passear pelo Quartier Latin e pelas margens do Sena. Paris estava linda com suas ruazinhas estreitas e seus cafés abarrotados, até que a chuva começou a cair muito forte, e tivemos que nos enfiar terra abaixo pela primeira estação de metrô para procurar um abrigo. Ficamos de uma estação a outra na esperança de que a chuva desse uma trégua. Meia hora de subsolo e nada da maldida parar, então resolvemos que melhor do que ficar ali era procurarmos um café. Já saindo da estação, avistamos um bar. Entramos e fomos conduzidos pelo garçom para o andar de baixo. Ficamos ali bebendo nossos cafés, comendo croissants e curtindo aquele ambiente cult, chique e aconchegante, até que...
            Vi um pequeno vulto no chão. Não falei nada, mas fiquei com um olho na mesa e outro no piso. E lá veio ele de novo avultando pro meu lado. Todo cinza e com aquele rabinho comprido, chegou bem perto de mim, me olhou nos olhos e voltou para debaixo de uns sofás. Eu olhei pra meus amigos, branca de susto, e falei: tem um rato aqui. Eles, naturalmente, não acreditaram em mim; acharam que eu tava de piada. Mas o ratinho me ajudou a provar: voltou a aparecer umas duas vezes, causando espanto coletivo.
            Já tínhamos tomado nossos cafés, então resolvemos cair fora. Na saída, o Douglas ainda falou para o garçom: tem um rato lá embaixo. O garçom riu e disse com naturalidade: um rato de Paris. E fez uma cara de: você queria que não tivesse ratos aqui? Só faltou completar: sim, é nosso rato de estimação. Ele não fez absolutamente nada, nem cara de constrangido. Achou aquilo muito normal e ainda riu. Minha prima, atordoada, começou a falar italiano com o garçom, reclamando que não tinha graça, que não era o Topo Gigio. Saímos do café apavorados. Mais com o garçom do que com o rato. Mas nem o rato nem o garçom acabaram com o nosso encontro: ainda fomos tomar um vinho italiano e dar umas risadas no hotel onde meus primos estavam hospedados. Minha prima Neusa, apesar de estar enojada com o roedor, continuou fazendo piada. Aliás, que humor o dela! Passei o final de semana todo rindo.
             No dia seguinte, fizemos o famoso passeio de barco pelo Sena. Inesquecível! Uma hora de emoções. A cidade vista do rio é mais linda ainda. Fomos também passear pelo Champs de Mars, só que a chuva definitivamente não nos largou. Paris tem dessas: você olha pro céu antes de sair de casa e não vê nenhuma nuvem, porém isso não quer dizer nada. Sempre leve seu guarda-chuva e um casaco. Infelizmente, não foi o que fizemos, e a chuva novamente começou a cair sobre nossas cabeças. Nossa sorte é que estávamos a alguns metros do maior e mais lindo guarda-chuva do mundo: a Torre Eiffel. Nos abrigamos debaixo dela e esperamos o tempo melhorar. Como sempre, a chuva passou rápido e, depois dela, o sol finalmente deu as caras e pudemos ir com nossos amigos visitar o Jardim de Luxemburgo. Eles não poderiam ir embora sem ver aquela maravilha. Ficamos lá um tempo e, quando o guarda soltou o apito avisando que iria fechar, fomos tomar um café em frente ao jardim.
            Nesse não vimos ratos, mas não pude deixar de lembrar do bichinho quando vi as bolinhas pretas do chocolate boiando na superfície da minha xícara. Comentei com eles a minha impressão e minha prima soltou uma gargalhada. O final de semana todo foi nesse ritmo de alegria. Fazia tempo que eu não ria tanto.
            No final do domingo fomos acompanhá-los até o metrô. Eu tava tão contente com a visita deles, que não me concentrava nos trajetos; me perdi várias vezes. Mas o marido da minha prima deu conta de nos localizar sempre com o seu mapa em mãos. Ainda no metrô, os dois enganaram a catraca que tanto complicou com a vida deles nesses quatro dias. Eles tinham gasto muito dinheiro num bilhete para quatro dias, mas na hora de passar a roleta, a mesma apitava e dava sinal de que o bilhete não valia. No último dia, eles já estavam comprando tickets toda vez que andávamos de metrô, até que, na última viagem, eles puderam se vingar do sistema. Quando iríamos passar pela roleta, e eles teriam mais uma vez que enfrentar fila e comprar bilhetes, uma porta especial para pessoas com malas abriu, e os dois se mandaram junto com as pessoas que passavam. Foi muito rápido. Nem eu vi o que eles fizeram. Fiquei procurando o casal, preocupada com o fato de que eles teriam que comprar bilhetes no meio de toda aquela gente. Quando olho pra frente, o Sadi, marido da minha prima, nos abanava do outro lado da roleta. Vi na cara deles a felicidade de terem enganado a catraca que tanto os fez sofrer. 
          Essa foi a última imagem que tive deles: tirando sarro do sistema francês. E, no final, mais uma despedida. Apesar do rato, o final de semana foi perfeito. É muito bom poder dividir essa cidade com pessoas das quais gostamos. Quem será a nossa próxima visita? Venham! Conheço um bar aqui em que você toma um café no porão que é uma delícia!







segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Encontros e despedidas

             Estávamos há quase dois meses aqui em Paris sem ver nenhum conhecido, mas sexta o destino me presenteou com um encontro mágico com uma amiga de Bento. E não foi qualquer amiga; foi uma amiga que eu não via há muitos anos. A última vez em que nos encontramos deve fazer pra mais de cinco anos, e lembro que foi no café do Shopping L’América. Agora tivemos a oportunidade de nos encontrarmos em Paris.

             A Thaisa é uma amiga da infância feliz e intensa da Giovani Menegotto, rua em que crescemos e que exploramos com nossas bicicletas. Amiga também de caminhadas, baladas, confissões e planos da adolescência. Por razões que só o destino conhece, seguimos caminhos diferentes e ficamos sem contato por muitos anos. Semana passada eu mandei as atualizações do meu blog para meus contatos e, pra minha felicidade, ela respondeu dizendo que estava vindo para uma feira aqui em Paris. Duas ou três ligações e, à uma hora da tarde de sexta, nos encontramos no Meridian Étoile. Ela me esperava no saguão e veio ao meu encontro de braços abertos e sorriso nas orelhas.             
Depois que ela fechou a conta, saímos para um passeio, não mais pelas ruas do bairro São Roque, mas pelas calçadas do Montmartre. Felizes da vida, como aquelas duas meninas que achavam o máximo se aventurarem pelo centro de Bento. Ela queria conhecer a Basílica do Sacre Coeur, então pegamos um metrô, descemos na estação Lamarck Caulaincourt e subimos as charmosas ruas em direção ao templo. Não tinha muitos turistas, então pudemos aproveitar o que o lugar nos proporciona: nada mais do que a linda Paris vista de cima. Curtimos aquele momento único e depois fomos dar uma passeada pelo quartier do Moulin Rouge e tomar um café parisien que a minha amiga fez questão de pagar pra mim.  Tivemos somente duas horas para matar as saudades e para contar as novas, pois às quatro da tarde ela deveria estar de volta ao hotel para depois seguir rumo ao aeroporto.
Tem amigos que você fica um tempo sem ver e, quando encontra, não tem nada pra dizer. Não foi o nosso caso. Apesar de o tempo ter sido curto, estávamos ofegantes de tanto falar. Não teria faltado assunto nem se tivéssemos ficado vinte e quatro horas conversando ininterruptamente. Pena que o relógio foi nosso inimigo. Já na hora de ela ir embora, comprei dois postais para ela entregar à minha família, e enquanto eu escrevia os recados, cheia de saudades e lembranças, ela me olhava com lágrimas nos olhos.
            Não chora, Thaty, a vida tem dessas. Certamente nos encontraremos mais vezes de hoje em diante, no Bairro Aparecida ou na Champs-Élysées, no Shopping L’América ou no castelo de Buckingham. O que importa é que a amizade continua a mesma.
            



sábado, 23 de outubro de 2010

Milhares de fotos

            Se você vier pra Paris, jamais saia de casa sem a sua máquina fotográfica. Mesmo que você não vá visitar algum monumento ou jardim. Sempre leve a sua digital na bolsa. É impressionante como tem coisas bonitas nessa cidade em lugares que você nem imagina. Logo nos primeiros dias aqui, estávamos perdidos por umas ruas do Marais e, quando olho para o lado, me deparo com um castelo. Até já publiquei a foto no blog, mas, de tão lindo, vou publicar a foto de novo. E essa cena aconteceu muitas vezes desde então, só que a cabeça aqui frequentemente esquecia a máquina em casa.
            Eu sempre concordei com a teoria de que quem muito fotografa pouco vê. Mas depois que vim pra Paris eu comecei a mudar um pouco o meu pensamento, e vou dizer por quê: talvez seja a primeira e última oportunidade de eu estar aqui; e outra: e os meus amigos que não estão comigo e que eu queria que estivessem? Como vou descrever tudo que vi com palavras? Nem que eu fosse a reencarnação do Tolstoi eu conseguiria. Um dia eu discuti esse assunto com uma amiga na mesa do antigo Boteco do Dé. Eu dizia pra ela: detesto quando as pessoas fazem foto de tudo, elas não enxergam o que fotografam. Aí minha amiga respondeu: tu vai ver quando tu for viajar e ficar deslumbrada com o que vê; tu vai querer fotografar tudo. E eu retrucava: não vou não, eu acho isso o fim. É, mordi a língua; não tem como não fotografar Paris.
           O Douglas e eu também entramos em conflito quando o assunto é foto. Eu vou bem longe da câmera e digo: pega mais a paisagem e menos eu. Ele fica reclamando e dizendo que eu pareço uma formiga e que não tem graça se não dá nem pra reconhecer quem é. Mas é que a minha cara é muito menos importante do que o Arco do Triunfo, por exemplo. Eu prefiro que cortem a minha perna, mas que, pelo amor, não cortem as torres da Notre Dame. Outra coisa que o Douglas não gosta é de tirar foto só da paisagem. Se tu não vai aparecer na foto, que graça tem? Pega na internet que tem centenas iguais a esta, me diz ele. Mas é que pra mim não é a mesma coisa pegar na internet: eu sei que fui eu que bati aquela foto, que escolhi o ângulo e que eu estava lá naquele exato momento.
          Eu gosto de bater foto de lugares como os bares do Quartier Latin. O Douglas só me olha e diz: o que tu tá fazendo? Batendo foto do bar, ué. Que estranha que tu é!, diz ele. Se fosse da rua toda pelo menos...
          Porém, eu me divirto. Não saio mais de casa sem a máquina e, nessa brincadeira, já batemos quinhentas fotos aqui em Paris, registrando desde o Château de Vincennes e a Tour Eiffel até a cerveja e o pimentão caricato que compramos no Fran Prix.  Se continuarmos nesse ritmo, voltaremos ao Brasil com duas mil e quinhentas fotos na memória. Como a minha memória não tem tanta capacidade assim, eu prefiro garantir que não esquecerei essas imagens jamais.    
























quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Amizades orientais

            Os grupos de conversação que frequentamos toda a semana são ótimos para praticar a língua e também para conhecer pessoas. Toda semana podemos nos inscrever em até três grupos diferentes. Estamos conhecendo gente de quase todos os cantos do mundo: além dos brasileiros, que estão por toda parte, tem vietnamitas, russos, alemães, italianos, iranianos, taiwaneses, mexicanos, argentinos, chineses e japoneses. O que não vejo nos grupos são os americanos. Não conheci nenhum até agora, apesar da Casa dos Estados Unidos ser uma das maiores daqui. Acho que eles não querem se misturar muito.          
            Em cada conversação a turma muda, mas sempre tem aquelas pessoas que, como nós, vão toda semana. Assim, acabamos reencontrando os que sempre vão e criando um vínculo maior com eles. Tem uma japonesa que está em todas e é tão simpática que não pude deixar de puxar papo no final de um dos encontros. Vous êtes très sympathique, eu falei. E não foi gentileza minha;  ela tá sempre rindo, até quando fala. Viemos uma noite juntas pra casa, e ela me mostrou os peixes vermelhos que moram num pequeno lago em frente à Casa do Japão. Eu quis retribuir a simpatia e a convidei pra tomar um café na nossa casa. Ela aceitou na hora, com um sorriso. Entrou na Casa do Brasil já maravilhada com o convite e ficou impressionada com a arquitetura diferente. E eu tive aquela sensação de estar fazendo alguém feliz. Na saída, ela agradeceu muitas vezes, trocamos endereços de e-mail, e ela me convidou para algum dia jantarmos uma comida japonesa que ela mesma preparará.  Depois que ela foi embora, o Doug e eu ficamos conversando sobre isso. Será que é cultural os orientais convidarem pra almoçar e jantar nas suas casas? No Brasil não se faz isso no primeiro encontro, não de amizade pelo menos. No máximo, um café em algum lugar público.
            Eis que agora eu tive certeza de que isso é típico do Oriente. No meu curso de francês eu conheci uma tailandesa. Ela chegou na terceira aula, sem livros e sem cadernos. A professora já deu aquela detonada. Eu fiquei com pena e, no fim da aula, fui conversar com ela pra dizer os livros que ela teria que comprar. Além disso, no dia seguinte, sentei com ela pra ajudá-la com as lições, afinal o português está muito mais perto do francês do que o tailandês. Ela tem muita dificuldade. No final da aula, ela me perguntou se eu gostava da cozinha oriental, vi na expressão dela a felicidade por eu ter ajudado Eu disse que oui, j’aime beaucoup. Então ela me convidou pra almoçar no restaurante tailandês que a mãe dela abriu aqui em Paris. E, como se não bastasse, ainda apareceu hoje com um presente pra mim: um pote cheinho de sushi que ela pegou no restaurante de comida japonesa da tia. Me deu até aquele molho de vinagre para acompanhar.
              As minhas amigas de olho puxado são muito simpáticas e ainda me presenteiam com deliciosos pratos orientais. Eu é que não sei o que vou levar de presente pra minha amiga tailandesa agora. Se pelo menos eu tivesse posto umas havaianas na mala...

domingo, 17 de outubro de 2010

Château de Vincennes

            Hoje o frio do hemisfério norte começou a mostrar as suas garras, mas como bons gaúchos não nos intimidamos e fomos para um passeio ao ar livre no Château de Vincennes. O lugar é encantador. Aí vão algumas fotos.

 


 




 

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Corra, louca, corra!

              Hoje o Douglas saiu cedo para um colóquio sobre Jean Anouilh em Créteil e eu fiquei dormindo. Estou me vingando de todas aquelas manhãs em que tive que acordar independente da chuva ou do frio, às seis e meia da matina. Agora eu fico me revirando na cama até às 10 ou 11 horas. Mesmo que eu não tenha mais sono. Eu fico na cama afofando o travesseiro com a cabeça e curtindo as minhas férias prolongadas no quentinho.
              Hoje não foi diferente. Era 10 e pouco e eu estava naquele estágio de acordar, pensar no que tem pra fazer e dormir de novo. O celular estava no soneca, então a cada 10 minutos ele dava uma buzinada. Entre um alarme e outro, comecei a ouvir uma sirene muito mais forte do que a do meu celular; parecia o alarme do prédio. Não dei muita bola; só fiquei de olho aberto pra ver se acontecia alguma coisa. A buzina continuou berrando e cada vez mais forte. Quando eu já estava decidida a pular da cama pra conferir o que estava acontecendo eu ouvi quatro pancadas na porta, como na Quinta Sinfonia de Beethoven anunciando a chegada do destino. Comecei a tremer e meu coração bateu forte. O prédio tá pegando fogo, eu pensei assustada.                          
            Abri a porta, de pijama ainda, e vi as pessoas saindo de seus apartamentos e descendo as escadas. A moça do quarto da frente estava na mesma situação que eu: cara amassada, de pijama e sem entender nada. Fechei a porta decidida a vestir uma roupa normal e descer. Só que nesse momento já era umas 10:20, e às 11 horas eu teria que sair pro meu curso. O prédio possivelmente pegando fogo e eu em estado letárgico pensando: será que levo a bolsa e os livros? Pelo menos assim eu salvo meu passaporte. Mas eu tenho que tomar café ainda! Fui até a sacada e não vi nada: nem fumaça, nem gente olhando pra cima.
           Vesti uma roupa e corri rumo ao elevador. Ali perto tem a sacada que dá pro outro lado do prédio. Resolvi conferir: nada de fumaça e nenhuma movimentação. Aí eu comecei a sentir um calor na perna. Logo me ocorreu que pudesse ser o fogo chegando até mim. Nisso olho pro lado e vejo que estou quase encostando no aquecedor.  A essas alturas o alarme já tinha parado de tocar. Aí pensei: o fogo deve ter consumido os fios e, por isso, o alarme parou.  Voltei pro apartamento, botei a água pro café no fogo e deixei a porta aberta. Qualquer sinal de fumaça, eu sairia correndo. Nisso, ouvi barulho no corredor, saí e vi um cara mexendo no alarme de incêndio. Perguntei em português o que estava acontecendo, e ele, espantando por eu estar ali, respondeu em francês: você deveria estar lá embaixo. Aí eu respondi: mas eu não posso, eu tenho um compromisso às 11 horas, vou me atrasar. Ele respondeu: Ce n’est pas grave. Traduzindo: tudo bem, nem esquenta.
          Entrei novamente no apartamento, dessa vez bem mais tranquila, e deixei a porta aberta, pois ainda não tinha certeza do que estava acontecendo. Dali a pouco a galera começou a voltar em massa para seus quartos. Olhei para o vizinho que estava chegando de bermuda e chinelo e disse: achei que ia morrer queimada!. Aí ele me explicou que era um treinamento de incêndio, e que todos deveriam descer imediatamente. Ainda me contou que a diretora da casa usou a seguinte frase: quem desceu teria se salvado; quem ficou lá em cima, a essas horas estaria morto.
           Não sei o que me deu na hora. Só sei que não consegui descer. Certamente teria morrido carbonizada. Na próxima vez em que eu ouvir os alarmes soando, serei a primeira a chegar do lado de fora do prédio. É muito cedo para os sinos dobrarem por mim.