Quem sou eu

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Meu nome é Renata, sou professora de francês desde 2011. Sou formada em Letras : Língua e literatura francesa UFRGS. Tenho experiência no exterior, fui aluna da Sorbonne - Université Paris IV e também do Intitut Privé Campus Langues - Paris, fiz o estágio de professores de francês do Cavilam em Vichy. Fui professora e coordenadora da Aliança Francesa de Caxias do Sul por 8 anos. Atualmente tenho minha própria escola on-line de francês chamada Renatatouille_francês onde ministro aulas particulares ou em grupo pela plataforma Zoom.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Greve faz bem para os olhos

             As fotos abaixo foram tiradas hoje num período de pouco mais de uma hora, tempo que demorei pra voltar da Sorbonne até em casa.  Eu tinha duas opções: esperar noventa minutos pelo ônibus ou caminhar cerca de três quilômetros por Paris. Eu escolhi a segunda opção. Aí vai o resultado:   

          1ª imagem: Encontrei uma exposição na saída da Sorbonne. Me chamou à atenção a forma que a artista montava os quadros, pois usava, além de tinta, tickets de metrô, propaganda de peças de teatro, shows, imagens recortadas de revistas e jornais, etc.
                   
 

            
              2ª imagem: Uma manifestação bloqueando uma das principais avenidas da cidade. Estamos há 40 dias aqui e essa é a terceira ou quarta greve que pegamos. Por isso é que eu não tinha a opção do metrô, e o ônibus iria demorar tanto. Quando encontrei esse povo todo, tive que me deslocar duas quadras do meu caminho para poder atravessar num lugar menos tumultuado. Eu só consegui fazer essa foto, porque dava medo de chegar mais perto, o barulho era ensurdecedor. As pessoas estavam com bandeiras e camisetas da greve e também com autofalantes que usavam pra discursar e cantar jingles que eu não decifrei o que diziam, mas acho que era algo como: "Trabalhadores unidos, jamais serão vencidos". Pelo menos o ritmo era o mesmo.



              3ª, 4ª e 5ª imagens: Logo depois de conseguir passar pela manifestação, encontrei estes simpáticos pombos. Que depois dos franceses e chineses, são a população mais presente por aqui. Eles estão por toda parte. Esses dias estávamos dentro do metrô, a porta estava aberta, e um pombo ciscava a menos de um metro de nós, com a estação cheia de gente. Eles não se abalam com a presença humana, aliás é você que tem que tomar cuidado com eles, porque passam a milímetros da sua cabeça numa velocidade que dá medo. A sequência abaixo mostra isto: cheguei perto pra tirar a foto e eles nem deram bola. Então eu cheguei mais perto pra bater a segunda foto; alguns se intimidaram um pouquinho, mas o restante continuou comendo. Eles só voaram quando eu quase encostei a máquina num deles pra fazer um close do olho.







           As útlimas três imagens são do Parc Montsouris e de seus habitantes. O parque fica bem pertinho da nossa casa, na frente da Cité Universitaire.






            Se não fosse a greve, eu teria pego um metrô ou um ônibus e em dez minutos teria chegado em casa sem ter visto nada disso. A greve não vai melhorar a minha aposentadoria, pois me aposentarei no Brasil, mas pelo menos me proporcionou belas visões na França.          

domingo, 10 de outubro de 2010

Dia cinematográfico

             Hoje o sol nos acompanhou o dia todo. E que dia! Tivemos a brilhante ideia de visitar a Cinemateca de Paris. Demos uma conferida na internet pra saber os horários e descobrimos que, no domingo, até à uma hora da tarde, a entrada para o museu da cinemateca é de graça. Já era meio-dia, mas resolvemos tentar. Tudo é tão caro aqui em Paris, que temos que aproveitar ao máximo essas promoções.
             Pegamos dois metrôs até lá, mas mesmo assim conseguimos chegar faltando dez minutos para a uma. Ainda bem que o francês já está mais fluente, pois tivemos que nos defender da moça do atendimento que “não lembrava que era de graça”. Depois de explicarmos que vimos na internet, ela confirmou com um colega e entramos no museu sem pagar um euro.
             A cinemateca, que foi fundada em 1936 por Henri Langlois, Georges Franju, Jean Mitry e Auguste Paul Harle, tem dois andares de museu. Pra quem gosta de cinema o lugar é o paraíso: parece que você está passeando pelos cenários dos filmes que mais gosta. As salas são pretas e você tem que ficar atento para captar tudo que o lugar tem para mostrar, pois até no chão são projetadas imagens. Além disso, o som parece que caminha atrás de você, e uma mesma sala chega a ter três filmes passando ao mesmo tempo.
             Entre as obras expostas, estão alguns figurinos, como um manto de mago utilizado no filme de Georges Melies “Voyage dans la lune”, de 1902;  a roupa de papa de Ringo Starr no filme “Lisztomania” de Ken Russel, de 1975; a capa e o vestido da atriz Stacia Napierkowska no filme “Atlântida,” de 1921, e a roupa vestida por Albert Lambert em 1908 no filme “L’assassinat du Duc de Guise”.        
             Além disso, há acessórios e maquetes: a caixa preta e amarela usada pelo ciclista do filme de Buñuel “Un chien andalou” e a cópia em tamanho natural do robô do filme “Metrópolis”, de Fritz Lang, que quase me fez chorar com o cenário do filme ao fundo e, no chão da sala, uma parte do filme sendo projetado.
            Para quem gosta do expressionismo alemão, há muitas coisas sobre “O Gabinete no Dr Caligari”, inclusive quadros e cartazes da época. Já para os fãs de Charles Chaplin, há um espaço especial reservado a ele, com três engrenagens originais usadas no filme “Tempos Modernos”, fotos, pinturas e um auto-retrato de 1920, que de tanto que amei, tentei reproduzir no desenho abaixo, já que é proibido tirar foto.

Há muitos cartazes de filmes antigos também: La dame aux camelias, de 1911, com uma inscrição “film d’art”, o que já deixa transparecer uma intenção de distinguir o que é cinema de arte e o que não é, e “La Belle et la Bête”, do Cocteau, de 1946, tem um cartaz tão grande que faz no mínimo dois dos cartazes atuais.
Outros objetos também ajudam a contar a história do cinema. Tem até uma estatueta do Oscar ganha por Henri Langlois em 1974; um exemplar da revista Cahiers du Cinéma de 1968 e ainda câmeras e engenhocas dos mais variados tamanhos, cores e épocas, como a “Lanterne de projection” (1888 e 1989), “revolver photographique” (1873), a Lanterne magique polichrome (1860), o Praxinoscope (1879), o kinetoscope de Thomas Edison (1894-1895), o Thaumatrope (1826) e a câmera chronophotographique (1886).
Na cinemateca, também se pode ver muitos clássicos passando nas diversas telas espalhadas pelo museu: Acossado, Tempos Modernos, Metrópolis, Um cão andaluz, Atlântida, Lisztmania, A estrela do mar, o Gabinete do Dr Caligari...
           Quando terminamos de ver tudo, a vontade que tínhamos era de voltarmos para o início, como aquele livro que você termina e fica tentado a reler no mesmo instante.  Demos mais um giro pelo local pra ter certeza de que não tínhamos deixado nenhum clássico pra trás e saímos do lugar como se o melhor filme que vimos até hoje tivesse acabado.
           A cinemateca fica praticamente dentro do parque Bercy, então, na saída, resolvemos conhecê-lo. Outra surpresa: um parque cheio de canteiros com flores, folhagens e verduras. Me fez até lembrar da horta da minha avó de tão bonito que é. As pessoas, como é costume aqui em Paris, ficam sentadas ou deitadas no gramado, lendo, conversando ou comendo. Caminhamos umas duas horas pelo parque; depois compramos comida, sentamos na grama ao sol como os parisienses e matamos a fome de horas
           Saindo do parque, encontramos a Passarela Simone de Beauvoir, que dá, nada mais nada menos, que na Biblioteca Nacional da França. Passamos por ela e pegamos um ônibus para casa para ver melhor a cidade. O metrô seria mais rápido, mas como é subterrâneo na maior parte do seu trajeto, não conseguiríamos ver as ruas.
           É, tem dias em que ficamos indignados com a burocracia francesa; mas tem outros em que você cai na real e percebe que está numa das cidades mais lindas do mundo, com mil coisas pra fazer, mil lugares pra visitar e com muitos parques floridos para passar num domingo de sol com o amor da sua vida.














sábado, 9 de outubro de 2010

Torre Eiffel

Ela é linda, gigante e elegante. Tiramos o final do dia para contemplá-la ao pôr-do-sol.


domingo, 3 de outubro de 2010

Museu d'Orsay

                Dia de fila para votar no Brasil. Os exilados aqui não votaram, mas enfrentaram uma fila para conhecer o Museu d’Orsay. Todo primeiro domingo do mês, os museus são de graça na França. Saímos de casa logo depois do meio-dia, pegamos o metrô Saint Michel/Notre Dame e fomos caminhando pelas margens do Sena até chegarmos ao Museu, que está instalado no prédio onde antigamente funcionava uma estação ferroviária. Reconhecemos já de longe pelos enormes relógios da fachada.   
               A fila, apesar de grande, andou rápido: ficamos no máximo quinze minutos esperando no sol. Logo na entrada, o aviso: Proibido tirar fotos. Por um lado, eu acho isso ruim, pois você sempre quer registrar o que viu para lembrar mais tarde ou para mostrar para aquele amigo que você não pode colocar na mala; mas, por outro lado, eu acho maravilhoso, pois você olha as obras com muito mais tranquilidade sem aquele bando de gente que se acumula na frente de um quadro famoso somente para fotografá-lo.   
             O teto é altíssimo, e o lugar é espaçoso e cheio de passarelas e escadas que te transportam de um lado para o outro do museu, que é repleto de quadros e esculturas de artistas como Rodin, Cézanne e Monet. Quanto vi os quadros do Van Gogh meus olhos se encheram de lágrimas. O colorido é penetrante. Eu gostaria de escrever melhor para poder exprimir o que senti naquele momento. Lembrei na hora do filme “Sonhos”, em que um rapaz entra nos quadros do Van Gogh. Eu entrei em vários hoje.
             Tudo é divino e maravilhoso lá dentro, e uma cena me chamou muito a atenção: um grupo de crianças ao redor do Urso Branco, do François Pompon, ouvindo as explicações da professora sobre a obra. As crianças não tinham mais de cinco anos e estavam todas, sem exceção, com os olhos no urso e os ouvidos na professora. Aproveitei aquela oportunidade, que não tive quando criança, e fiquei ali, admirando o urso e ouvindo a explicação. Senti na hora uma carência enorme e uma inveja daquelas crianças que falam francês melhor do que eu e que farão muitas visitas dessas ao longo da sua trajetória escolar.
             Devido ao cansaço e ao horário de fechamento do museu, vimos somente uma parte dele; teremos que voltar mais uma vez para ver o restante. No caso do Museu d’Orsay, o restante é Ingres, Degas, Delacroix...



sábado, 2 de outubro de 2010

Nas profundezas de Paris

              Ontem o nosso dia foi de causar inveja a qualquer black metal. Terminou com o filme Histórias Extraordinárias, baseado nos contos do Poe e começou com chuva, neblina, escuridão e muitas caveiras.
              Ainda no Brasil, eu tinha lido algo sobre as Catacombes de Paris e estava ansiosa para conhecer. Até que ontem aproveitamos o dia de chuva para o passeio underground. As Catacombes são antigas pedreiras que foram utilizadas para abrigar os ossos do “Cimetière des Innocents” em 1785 e, mais tarde, de quase todos os cemitérios de Paris. O lugar está aberto desde o século XIX para visitação, e consta que até Napoleão já esteve admirando umas tíbias com o filho.
              Logo na entrada um aviso: não é aconselhável para quem tem problema respiratório ou de coração. Quando eu cheguei no quadragésimo degrau rumo ao centro da terra, eu comecei a entender o aviso, pois uma escada caracol com mais de 80 degraus leva os visitantes para o fundo de Paris, 20 metros abaixo da terra. 
              Quando você para de descer já encontra um túnel gelado, úmido, escuro e silencioso que te leva até o ossário. Parece que eles deixam entrar 200 pessoas por vez, mas o lugar é tão grande que logo você perde o contato com as pessoas que entraram com você. Às vezes eu até olhava assustada pra trás pra ver se o Douglas ainda estava por ali. 
      
             Depois de uma longa caminhada, um aviso na parede para não usar flash na máquina. Naquele ponto é que começa a nossa visita ao milhares de mortos. Crânios e outras partes do esqueleto humano forram quilômetros de túnel. Nada jogado, tudo encaixado cuidadosamente nas paredes formando muitas vezes desenhos e esculturas. O silêncio é mórbido e só é interrompido por um pequeno tremor a cada 5 ou 10 minutos que, creio eu, seja do metrô. Íamos desviando das poças d’água no chão e também das gotas que vinham daquele teto baixo e úmido. Cada gota que eu não conseguia desviar me fazia tremer mais ainda de frio e também de nojo. Suor de caveira pingando na tua cabeça não é uma sensação muito boa.
             Pelo caminho encontrávamos placas de três séculos com frases sobre a morte. Depois de uma hora, encontramos os 83 degraus que nos levaram ao ar livre e, pra nossa surpresa, as gotas continuavam caindo sobre nossas cabeças, só que dessa vez, agradavelmente, eram gotas de chuva.














Pare! É aqui o Império da Morte





Assim, tudo passa sobre a terra
Espírito, beleza, graças, talento
Tal como uma flor efêmera
 Que se entorna ao menor vento



quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A dança das cadeiras

              Hoje o dia foi o oposto de ontem. Repito o que já disse em outro post: a vida aqui em Paris é muito intensa. Ontem fomos até a Sorbonne para tentar fazer a minha inscrição num curso de francês. Pegamos uma ficha de número 40 na entrada e sentamos. As moças que estavam atendendo estavam chamando o número 20, ou seja, tínhamos muito tempo de espera pela frente. Quando chegaram ao número 30, elas começaram a pedir se tinha alunos antigos da escola, e aí começou a confusão. Desceu uma dezena deles e passaram todos na nossa frente, fora as pessoas que chegavam lá pra pedir informação sem ter pego a ficha com o número e mesmo assim eram atendidas. Comecei a ficar com um ódio tremendo daquilo. O Douglas tentava me acalmar, mas chegou uma hora que eu comecei a deixá-lo nervoso também. Enfim, depois de duas horas, fomos atendidos.
 Não consegui disfarçar: sentei em frente à mulher e larguei um suspiro de alívio. Ela riu e disse que tinha bastante gente mesmo. Acho que ela não entendeu a minha interjeição, mas tudo bem. Eu simplesmente sorri de volta e comecei a falar. Eu já tinha pesquisado na internet e sabia exatamente qual o curso que eu queria fazer; mas descobri naquele momento que aquela fila toda era pra explicar o que eu já sabia e pra pegar uma convocação para, no dia seguinte (hoje), fazer a inscrição do curso.  Eu só precisaria do passaporte, diploma de ensino superior traduzido (graças a Deus eu fiz ainda no Brasil) e pagar. Só tinha um detalhe: a única forma de pagamento que eles não aceitavam era em dinheiro. Como assim? – Não aceitamos dinheiro, disse a moça, você terá que pagar com cartão ou fazer um depósito para a Fondation Sorbon, e me deu os endereços de onde eu poderia fazer o depósito. Pra mim o cartão estava fora de cogitação, pois as taxas de cartão de crédito internacional são absurdas e proporcionais ao valor utilizado, que nesse caso era bem alto. Corremos dali em direção à agência que ela indicou, pois já eram quatro horas da tarde, e a inscrição pra hoje estava marcada para as 10:30; não daria tempo de depositar.
              A moça do banco nos deu um envelope de plástico e explicou o que eu teria que preencher. Eu peguei o envelope e fiquei olhando pra ela. Queria perguntar se podia escrever ali mesmo e se ela me emprestaria uma caneta, mas as palavras em francês demoraram pra passar do cérebro para a boca, então ela começou a me explicar tudo de novo, só que dessa vez em inglês. Naquele momento eu tive vontade de pegar a mulher pelo pescoço e começar a gritar: EU JÁ ENTENDI ISSO, QUERO SABER SE TU ME EMPRESTA UMA CANETA!!!!!!!!!! Nisso o Douglas viu uma mesinha mais adiante com uma caneta em cima e me puxou. Preenchemos o tal papel, colocamos a grana dentro e fomos embora. Chegando em casa eu vi que tinha depositado 50 euros a menos do que o valor do curso. Que dia de cão! Dormi muito mal durante a noite pensando em como eu iria explicar em francês que tinha esquecido de depositar parte do dinheiro.
 Acordei cedo hoje de manhã, tomei um café reforçado, pois não sabia que horas iria me liberar, e fomos até a Sorbonne. Pra minha sorte, o Douglas ainda não começou as atividades dele e pôde me acompanhar. Chegando lá, o recepcionista pegou a minha convocação, me deu uma ficha para preencher e pediu para sentar naquela cadeira (tinha uma cadeira específica para eu sentar), com umas 20 pessoas na minha frente. Não entendi muito bem por que tinha que ser exatamente aquela cadeira, mas ele fez questão de me acompanhar até lá e disse: essa aqui! Ao correr da carruagem eu entendi: conforme as pessoas eram chamadas, o próximo pulava uma cadeira e o restante da fila também. O primeiro da fila era chamado e o os próximos... voilà!, pulavam uma cadeira. Na verdade, era uma fila normal, só que em vez de dar dois passinhos, você dava um pulinho pra outra cadeira. Nunca vi isso em toda minha vida!
 Depois de experimentar as 20 cadeiras do lugar, fomos chamados para a outra sala, que para mim seria a sala da inscrição. Mas não; eram mais umas 10 cadeiras. Inacreditável!. Quando vi a cena tive que rir, e os companheiros de espera estavam no mesmo clima: pulavam uma cadeira e davam risada ou faziam uma piada da situação. 30 cadeiras e, finalmente, fui chamada para fazer a inscrição.
 Depois da descontração dos saltinhos, eu já estava muito tranquila. Fiz a inscrição sem problema algum, consegui explicar a questão do depósito a menor, paguei os 50 euros e já recebi a minha carteirinha de estudante. Sou a mais nova aluna da Sorbonne e vou começar as minhas atividades antes mesmo que o Douglas. Amanhã cedo já vou fazer a prova de nível e, dia 6 de outubro, começo o meu curso.
 Saí da Sorbonne feliz da vida. Ainda fomos dar um passeio pelo Arco do Triunfo, pela Champs Élysées e pela Praça da Concórdia. Pegamos três metrôs para casa e, na estação de Montparnasse, que é uma das maiores por aqui, têm uma esteira rolante para as pessoas não terem que caminhar, mas na qual todos caminham. Eu estava tão contente e sem pressa que, pela primeira vez, fiquei parada na esteira e aproveitei para contar em voz alta e em bom português as pessoas que passavam apressadas por nós: um panaca, dois panacas, três panacas... 64 panacas!
 Nada como um dia após o outro. Aqui na França, estou tendo todas as oportunidades de controlar o meu temperamento. Amigos e amigas, se as coisas continuarem assim, vou voltar para o Brasil falando francês, com certificado da Universidade de Paris e totalmente zen!

domingo, 26 de setembro de 2010

Musée de la Vie Romantique

                O Musée de la Vie Romantique funciona desde 1983 e guarda pinturas e relíquias da época do Romantismo. A casa de 1830 que hoje é o museu pertenceu à família Scheffer-Renan; e fica escondida na rua Chaptal, é preciso passar por uma entrada estreita e forrada de cerca-viva para chegar até ela.
                Ao lado da casa tem um jardim com bancos e mesas para tomar o chá da tarde, vendido ali mesmo. A entrada é grátis, eles só cobram quando tem exposições temporárias, aliás dia 28 vai começar uma sobre o Romantismo russo.  
               No térreo do museu tem um quarto totalmente dedicado a George Sand, com retratos, móveis e joias dos séculos XVIII e XIX que pertenceram à escritora.
              Cada cômodo é uma surpresa. Uma das salas com móveis típicos do século XIX tocava Chopin num pequeno rádio. Mas a parte de cima é a que comporta o maior número de salas e de obras de vários autores, principalmente as do pintor Ary Scheffer. Descobrimos que no século XIX, toda sexta-feira, Scheffer recebia na casa a elite artística e literária: George Sand, Chopin, Delacroix, Rossini, Liszt, Dickens... Ainda na parte de cima tem um atelier de pintura que pertenceu ao irmão de Ary, Henry Scheffer, e a obra que mais me fascinou: a mão esquerda de Chopin em gesso feita por Auguste Clésinger.
             Quando a Deise vier nos visitar, já sei qual será o primeiro lugar que vou levá-la.





sábado, 25 de setembro de 2010

Tomaram a Bastilha

               Estamos em Paris há 23 dias. É quase uma reclusão espiritual, pois estamos sem TV e sem celular. E o melhor de tudo: eles não nos fazem falta, a não ser pela falta de informação.  Hoje aproveitamos o primeiro sábado de outono para passear pela cidade. A ideia era conhecer a casa de Victor Hugo que fica na Place des Vosges. Pegamos o metrô e depois de duas conexões chegamos ao ponto mais próximo, a Praça da Bastilha. Ela estava tomada de gente, a maioria de adolescentes, uma multidão com os estilos mais exóticos que já vi até hoje.  A mais bizarra era uma adolescente com a cara pintada, coturnos, capote e chapéu preto: somente isso, o resto das peças de roupa ela não tinha.
             Seria aquilo alguma festa? Um protesto? Outra greve? Parada gay? Não sabíamos e, para chegar ao nosso destino, teríamos que passar por aquele mar de gente. Resolvemos tentar, mas nada feito; chegamos numa avenida que estava sendo fechada por policiais. Nessa rua estava acontecendo um desfile de caminhões tocando música muito alta e com gente cantando e dançando em cima das caçambas. E nós, ali no meio daquilo tudo, inocentes e alheios ao que estava acontecendo.  Peguei o mapa e decidimos chegar à Place des Vosges por outro trajeto, contrário à movimentação. Pelo caminho também encontramos muita gente de cabelo colorido, gente sendo socorrida da bebedeira pelos policias, galera dançando em cima dos banheiros públicos e muita latinha de cerveja pelo chão. Cadê os franceses politicamente corretos, sérios e engomadinhos?
                  Depois de mais de uma hora, finalmente encontramos a praça, que é rodeada por prédios de tijolos vermelhos. Um desses prédios é a antiga casa do Victor Hugo, que hoje abriga um museu; mas, pra nosso azar, estava fechado.  Aproveitamos a viagem para passear pela praça e também para apreciar a arquitetura belíssima do lugar.  Quando o vento começou a incomodar, voltamos para casa. O Douglas correu para a internet pra ver se descobria que algazarra era aquela que estava acontecendo, e... Techno Parade 2010!  Agora antes de sair de casa, a gente pelo menos vai ler o Le Monde.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Shakespeare And Co.


Hoje tiramos a tarde para passear no Quartier Latin, uma região que fica às margens do Sena e é repleta de bares, restaurantes, teatros e livrarias. O Quartier Latin é a região em que fica a  Universidade de Paris (Sorbonne), e tem esse nome porque, da Idade Média até o século XVIII,  o latim foi a língua oficial na localidade. Nosso passeio foi pouco turístico, cada vez mais deixamos de lado os monumentos e vivemos como moradores parisienses: uma refeição regada a cerveja num dos bares do Quartier e uma maratona despretensiosa por sebos e livrarias. Achamos a gigante Gilbert Jeune com suas várias lojas separadas por estilo. Nessa nem entramos, pois não sairíamos antes de meia-noite sem ver tudo.   
Caminhamos mais um pouco e, bem ao lado da Notre Dame, encontramos a Shakespeare and Company, livraria aberta em 1951 por George Whitman e que é uma imitação da outra Shakespeare and Company  que  Sylvia Beach criou em 1919 e que foi a que publicou o Ulisses do Joyce. Ela foi fechada em 1941 durante o nazismo e a proprietária cedeu o nome a Whitman dez anos depois.
Antes de entrar na livraria, o cenário já é deslumbrante: muitas pessoas sentadas lendo e dois rapazes interpretando apaixonadamente uma peça em língua inglesa que minha limitação literária me impediu de identificar.
Logo na entrada, ainda na vitrine, vi o corvo do Poe, não o livro, o corvo mesmo, empalhado. Entramos de mansinho, olhando tudo. Nada de paredes brancas, nada novo; é uma casa muito antiga, como a maioria em Paris, com as vigas de madeira à mostra no teto. Em cada canto da livraria tem uma poltrona estofada ou cadeiras para os leitores ficarem à vontade em meio aos livros. O Douglas ficou fascinado; com certeza ele estava adorando aquilo ainda mais do que eu. Ficamos embasbacados com a beleza rústica daquele lugar e às vezes um chamava o outro pra mostrar uma das raridades que tinha encontrado.
No final do primeiro andar, vimos uma escada estreita que não sabíamos ao certo se podíamos subir. Tinha só uma plaquinha escrita a mão e, até onde entendi, dizia: piano, dormitórios, máquina de escrever...
A curiosidade nos deu coragem para encarar a subida. Valeu a pena; lá encontramos uma sala com livros não comercializáveis. Eles podem ser lidos somente naquele lugar. Raridades de colecionador. A parte de cima se parece mais ainda com uma casa; a diferença é que as paredes são forradas de estantes com livros. Numa das salas encontramos uma mesa em destaque, provavelmente usada por algum escritor famoso, (não sei, essa parte da história eu não li). Em outro cômodo mais adiante encontramos o tal piano citado na plaquinha. Ele está no meio de duas camas muito pequenas, então lembrei que o Juliano falou de uma livraria que abrigava escritores; não sei se é a mesma, mas já fiquei imaginando quem poderia ter passado por aquelas camas.  
O lugar é tão aconchegante que não parece um comércio, até porque não tem atendentes pentelhos atrás de você o tempo todo. Os únicos funcionários ficam em dois bureaus na entrada da livraria, o que faz com que você se sinta totalmente à vontade. Ficamos horas lá dentro, lendo coisas, descobrindo lugares e respirando aquele cheiro de livro velho que é tão bom quanto cheiro de café.
A decisão de ir embora foi difícil. Ainda bem que teremos mais nove meses para voltar a esse lugar. 











 



 







segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Cité Internationale Universitaire de Paris


A Cité Universitaire tem uma estrutura gigante que comporta 40 casas e fundações de várias nacionalidades, dentre elas a do Brasil, que é a que estamos morando.  Cada casa deve ter, além dos residentes do seu país, uma cota de 30% de estudantes de outros países, fomentando assim as relações entre os moradores de diferentes nacionalidades.
Tivemos uma reunião com a diretora da Maison du Brésil na semana em que chegamos, e ela contou um pouco sobre a história do lugar. É fascinante; a primeira casa foi construída em 1925, logo após a Primeira Guerra Mundial. O intuito de construir uma cidade universitária com casas de diferentes nacionalidades era promover a harmonia entre os países. Pensou-se que, juntando a futura elite do mundo numa mesma cidade, a amizade entre os membros e o conhecimento de diferentes culturas fariam com que jamais houvesse guerras. Entretanto, logo depois da construção da primeira casa, explodiu a Segunda Guerra Mundial. As casas continuaram sendo construídas e hoje abrigam estudantes de mais de 140 nacionalidades.  As casas são sustentadas com o dinheiro que os estudantes pagam dos aluguéis. A Maison du Brésil é uma das mais bem conservadas da Cité. Demorou três anos para ser construída com recursos do ministério da Educação via CAPES. Ela foi arquitetada em 1959 por Lucio Costa e Le Corbusier e totalmente reformada, também com a ajuda financeira da CAPES, em 2000.
Durante a ditadura militar, a residência abrigou alguns políticos exilados e, em 1968, a Maison du Brésil foi usada para as reuniões que precedram as manifestações no Quartier Latin. Em 1970 a casa foi mencionada como um espaço de resistência. (Para quem quiser saber mais sobre isto, leia o trabalho da Doutora Ceres Karam Brum: http://www.vibrant.org.br/downloads/v6n1_brum.pdf)
A Maison du Brésil tem uma estrutura espaçosa e aconchegante. São 22 apartamentos de casal e 78 quartos de solteiro, todos mobiliados e equipados. Os quartos de casal têm banheiro e cozinha, os de solteiro não, mas cada andar tem uma cozinha coletiva e banheiros. Além dessa estrutura, nossa casa tem uma cinemateca, uma biblioteca, uma sala de TV, uma cafeteria (onde os residentes fazem jantas e festas), um auditório, uma sala de informática, uma lavanderia e um saguão lindíssimo e silencioso com sofás relaxantes onde seguidamente se fazem exposições de arte e sobre a história da Cité e da casa. Enfim, estamos muito bem instalados. Os primeiros dias de adaptação foram difíceis, mas agora já me sinto em casa.
O final da tarde é o melhor momento para pegar cenas de estudantes caminhando, correndo, lendo debaixo de árvores ou então conversando num gramado enorme que fica aos fundos do prédio central. Temos também um restaurante universitário e um bar dentro da Cité Internationale. A vida aqui é muito tranquila. Estou morando num paraíso intelectual e multicultural. Vai ser difícil o dia em que eu tiver que ir embora.    
Cité Universitaire


Fundos da Cité


Maison du Brésil


              Algumas outras casas da Cité:


Argentina


Canadá


Itália




Japão


Suécia


Camboja

Nosso quarto:



Vista do quarto

O próprio