domingo, 30 de janeiro de 2011

Recepção italiana

            Um mês atrás começamos os preparativos para nossa viagem à Itália. Escolhemos Roma e Veneza e reservamos pela internet os hotéis e as passagens mais baratas que apareceram. Sábado, embarcamos pelo aeroporto de Beauvais só com uma mochila cada um, pois a nossa passagem de 15 euros não previa envio de bagagem. Já no avião começamos a entrar no espírito italiano quando a aeromoça chefe apresentou a comissão de bordo: Betina, Albertina, Martina.
          Que voo barulhento esse da Ryanair! Um bebê chorando, um velho rabugento reclamando o tempo todo do bambino e as aeromoças que não pararam um segundo de vender coisas: comida, cartão de celular, cigarro, cosméticos, jogo de bingo... Uma hora e meia de algazarra e chegamos a Ciampino, a uns 30 quilômetros de Roma, anunciado no avião com um toque de corneta: sobrevivemos. Logo na saída do aeroporto, pegamos uma discussão em voz alta e baixo nível entre uma senhora e três homens, repletas daqueles palavrões italianos que nós bem conhecemos, e nos sentimos felizes por estarmos em Roma. Depois, vimos uma mulher fazendo sinal e gritando: rápido, rápido que o ônibus vai sair. Era o transporte que nos levaria até o centro da cidade. Sabe quando na França alguém vai ficar te chamando porque o ônibus vai sair?...
         Chegamos à estação Termini, onde se cruzam as linhas de metrô da cidade e também de onde partem todos os trens para os arredores. E nós, só com o endereço do hotel, que ficava a uns 10 quilômetros ao sudeste dessa estação. Nossa sorte é que os italianos, diferente dos franceses, adoram dar informação; tem uns que além da informação te acompanham até o lugar onde você precisa chegar. Foi uma dessas almas que nos indicou o trenino, uma espécie de metrô medieval cheio de gente se estapeando amigavelmente. Ele andava tão devagar que eu achei que não chegaria nunca. E já fiquei preocupada: se tivermos que pegar sempre esse trem pra chegar até o centro, vamos perder umas duas horas por dia. Desembarcamos do trenzinho e, depois de mais umas informações, encontramos o hotel. Imaginem a seguinte cena: um hotel na beira de uma rodovia, tendo do lado direito um terreno baldio, do lado esquerdo um circo e na frente um boteco decorado com luzes vermelhas. Chegamos mortos de cansados, mas o recepcionista, todo atrapalhado, ainda demorou pra achar nossa reserva. Pra nossa tranquilidade, o quarto era grande e o banheiro e a cama impecáveis.
              Depois de um banho quente, mesmo exaustos, resolvemos aproveitar o resto do dia. Voltamos a recepção. O italiano fez cara feia quando perguntamos se tinha um modo mais rápido de chegarmos até Roma sem ter que usar aquele trenino. Vocês estão a pé? Precisam de transporte público? Depois de resmungar italianamente, ele nos indicou um ônibus que passa em frente ao hotel, linha 558; disse para pararmos na estação Subaugusta e pegarmos o metrô até a estação Termini.  Quisemos também saber se era perigoso andar à noite por aquela região desértica com palhaços assassinos – It! – na vizinhança. Ma! Então ele tinha que ouvir os brasileiros achando que na Itália é que tinha assalto...
Os italianos são muito engraçados e a grossura deles não nos faz mal como a dos franceses. É uma grossura espontânea e familiar, por isso não consegui ficar chateada com ele. Depois de agradecermos pela informação, testamos a sua dica e, em 40 minutos, estávamos novamente no centro de Roma. Assim, terminamos o sábado sentados em frente à Fontana di Trevi. Che dolce vita!
          No segundo dia, acordamos muito cedo, tomamos café no hotel e saímos com o 558, que passa a cada 20 minutos. Fomos ao Fórum Romano, ao Circo Massimo e ao Museo del Risorgimento, que fica dentro do monumento a Vittorio Emanuele. Mas antes, no Coliseu, a peculiar receptividade italiana deu suas provas novamente: fomos perguntar em italiano, para uma funcionária, onde era a entrada do Fórum Romano, e ela, querendo ajudar: Quale lingua?
Diante da pergunta inusitada, pensei: a guardinha é poliglota. Então respondi:
-       Português.
-       ...
-       Francês.
-       ...
-       Inglês.
-       ...
-       Espanhol.
-       ...
-       Italiano.
-       Va bene. Siga reto por aquela rua e na próxima você pega a esquerda.
     Que língua será que ela fala além de italiano? Tcheco?
Voltando pra casa vimos outra discussão, agora de um casal. Ela andava uns metros a pé xingando a mãe dele. Ele, de carro atrás dela, parava a cada dois metros e abria a porta pra ela entrar. Ela, então, dizia que nunca mais ia falar com ele. Ele, gesticulando muito, implorava: Amore, andiamo. Depois de o carro andar e parar umas seis vezes, ela resolveu entrar, fechando a porta com uma pancada.
Para nós, tudo era divertido. Até porque, por enquanto, não éramos nós que estávamos envolvidos naquela confusão nacional. O que era só uma questão de tempo.









domingo, 16 de janeiro de 2011

Tratamento armênio

          Sexta-feira, estação do metrô lotada de gente apressada. Eu e uma amiga caminhávamos sem nos importar com o empurra-empurra. Estávamos indo para a última aula de phonétique do semestre, felizes da vida. Eu olhava distraída uns cartazes de filme, quando sinto uma coisa roçando a minha perna. Um segundo depois, tive a nítida impressão de que era uma coisa peluda e grande, pois ela encostava também na minha mão. Foi a hora do salto. Voei pra cima da minha colega, que teve que se escorar na parede pra não cair. Hesitei uns segundos a olhar pra frente, mas como não podia ficar ali minha vida toda, resolvi encarar a realidade. Era um cão. Enorme! Seguido por seu dono de cabelos espetados, com fones nos ouvidos, que nem percebeu o que tinha acontecido.   
           Um cara que vinha atrás de nós não disfarçou: passou ao nosso lado, me olhou e soltou uma gargalhada. Eu olhei pra ele com cara de: O que foi idiota? Garanto que quando você vê uma aranha solta aquele gritinho fino e abana as mãos histericamente na altura do peito!
            Ignorei o abestalhado e, vendo que o dócil cãozinho não era nenhum monstro de sete cabeças e que mais animal era o seu dono, que nem se dava o trabalho de desviar das pessoas, continuamos nosso caminho, quando de repente fui privada da minha visão por um balde d’água na cara. Eu estava subindo as escadas em direção às roletas e quase me desequilibrei com a intensidade do jato. Enquanto eu secava a água dos olhos com o casaco e tirava o cabelo escorrido da cara com uma mão, com a outra eu tinha que sacar o cartão do bolso e passar a roleta do metrô antes que a multidão me pisoteasse.
Depois de muita dificuldade e sem saber se a roleta era roleta mesmo ou se era algum portal que me levaria dessa para uma pior, consegui chegar ao outro lado. Pra meu alívio, eu não estava no inferno, a não ser que o cachorro e a minha colega armênia tivessem vindo junto comigo. Desisti dessa segunda hipótese quando vi o trem parado e com as portas abertas: não deve ter essas praticidades no submundo. Na dúvida, deixei minha amiga entrar primeiro. Quando botei o pé pra dentro do trem, vi a big pata do animal a menos de um metro de mim. Recuei, corri uns metros e entrei no outro vagão. Minha amiga, que já estava sentada, levantou e veio atrás de mim, e por pouco não foi prensada na porta que já havia dado o sinal de que iria fechar. Eu me joguei no banco e fiquei tentando entender o que tinha acontecido. De onde tinha vindo toda aquela água? Tirei minhas luvas da bolsa e terminei de me secar, enquanto todo o trem me olhava, inclusive minha amiga, que se sentou no banco da frente. Depois de um longo silencio, ela me perguntou: Passou o susto? Eu balancei a cabeça positivamente, mesmo sem entender nada. Foi então que veio a revelação: Desculpa ter te molhado, mas é que, na Armênia, sempre jogamos água quando uma pessoa leva um susto, pra evitar que ela fique com transtornos mentais...
       Hã?
      Olhei pra ela com uma vontade absurda de pegá-la pelo pescoço e arremessá-la pela janela do trem. Quando estava criando forças, ela tirou a garrafa de um litro da bolsa e me disse sorrindo: Agora não tenho mais água pra tomar durante o dia, mas estou feliz por ter te ajudado.
         Levantei do banco e fui em direção a ela. Calma, eu não matei ninguém! Pelo contrário; eu a abracei, tirei a minha garrafa d’água da bolsa e dei para ela beber. Afinal, graças a seu instinto rápido e sua crença, eu não voltarei para o Brasil com um parafuso a menos.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Alice au Pays de Burton

          Chega uma hora em que a festa acaba e a rotina bate à porta, o que não quer dizer que os dias se tornem monótonos. Estava indo hoje para a Sorbonne e, como de costume, quando entrei na estação do metrô, fui em direção à caixa de jornais que são distribuídos gratuitamente. Geralmente, intercalo entre o Direct Matin e o Direct Soir, mas hoje resolvi pegar o A Nous Paris, pois vi Sofia Coppola na capa. Entrei no trem, abri o jornal e, de cara, recebi um convite irrecusável: Une nuit avec les Coppola, sessão de cinema com filmes da família Coppola que começará à meia-noite do próximo sábado e terminará com café da manhã no domingo. Podemos escolher três filmes para ver durante a madrugada. As opções: Encontros e Desencontros, Maria Antonieta, Uma Segunda Juventude, As Virgens Suicidas, Tetro e Drácula. Já temos programa para o fim-de-semana. Os jornais franceses são forrados de reportagens sobre filmes, peças de teatro, música, literatura, museus, dança. Claro que eles têm propaganda também, mas elas só representam 5% do jornal e não 80% como muitos jornais que conheço por aí...
            Depois de terminar de ler uma reportagem de duas páginas sobre Patti Smith, chego à minha estação: Luxembourg. Pois é, eu sou obrigada a passar todos os dias na frente do Jardim do Luxemburgo para chegar até a escola. Prometo não reclamar mais da minha rotina. Quando vou fechar o jornal pra guardar na pasta, o que vejo na contracapa? O coelho apressado! Sim, o coelho do Lewis Carroll, aquele perseguido pela Alice, vestido de Edward Mãos-de-Tesoura. Foi paixão à primeira vista. Nem guardei mais o jornal: cheguei na sala de aula e deixei exposto na minha mesa. Foi quando, para meu desespero, minha colega polonesa, que senta ao meu lado, pegou a caneta e veio reto na pata do coelho. – Nããããoo! O que você vai fazer? eu perguntei assustada, protegendo o meu coelho da violência da sua arte. Vou desenhar alguma coisa, disse entre dentes minha colega, com o braço paralisado. Então, antes que ela sofresse um ataque epilético e investisse com a caneta contra o meu coração, virei algumas páginas e disse: desenhe aqui!, apontando para uma página de shows flash-back disco-punk que não me interessavam.
            Acho que ela se assustou um pouco com a minha reação, pois desenhou um coraçãozinho de meio centímetro, querendo me dizer: desculpa, eu não queria desfigurar o teu coelho. Eu sorri pra ela e fingindo não me importar mais com o jornal, enfiei na bolsa. Imagina, eu chegaria em casa e a primeira coisa que iria fazer seria tirar uma foto do coelho estilizado pra mandar pra Deise, que adora tanto quanto eu o mundo maravilhoso do Lewis Carroll e também do Tim Burton. Quando acabou a aula, eu e Monika, a polonesa, fomos em direção à estação do metrô. No meio do caminho ela me cutuca e diz com desprezo, apontando para uma parada de ônibus: “Voilà, ton lapin”. Meus olhos brilharam: era um cartaz gigante do mesmo coelho. Depois de alguma insistência, pois minha amiga não queria pagar mico no meio da rua, ela finalmente bateu a foto pra mim.
          Voilà, mon Lapin!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Buttes des Chaumont

           Domingo foi o dia de o Douglas olhar o mapa e escolher um lugar para irmos. Como parou de nevar, a temperatura estava positiva e o sol resolveu aparecer, ele escolheu o Parc Buttes des Chaumont, no nordeste de Paris.








segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Virada

          Resolvemos passar a virada de ano às margens do Sena, num lugar que desse pra ver a torre e os fogos de artifício. Preparei nossa ceia de ano novo, jantamos e já tomamos a champagne, pois no site de Paris dizia que haveria guardas barrando a entrada de pessoas com garrafas nas redondezas dos pontos turísticos. Nos últimos anos, muita gente se machucou por causa dos vândalos que quebram garrafa só pra escutar o barulho. Saímos de casa às 11 horas. Todo o transporte público de Paris, do dia 31 às 5 da tarde até o dia 1º de janeiro ao meio-dia era de graça, então já prevíamos bastante gente.
         Sugeri ao Doug pararmos com o RER B na Notre-Dame e caminhar pelo Sena a pé até avistar a torre, pois a linha 6, que dá direto nela, deveria estar atrolhada de gente. Dentro do trem, já vimos que a noite seria agitada: as pessoas estavam gritando histericamente. Quando descemos na Notre-Dame já era 11:20. Pegamos a Rive Gauche e seguimos por ela. Passamos a Pont Neuf, a Pont des Arts, a Pont du Carrousel. Comecei a ficar preocupada com a hora: Que horas são, Doug?  
           - 11:40. Será que vai dar tempo?
           - Vai sim, só vamos apressar um pouco o passo. Apertamos as mãos e começamos a ultrapassar as pessoas que pareciam sem pressa alguma. Aliás, que gente esquisita! Enquanto corríamos para não perder a virada na torre, não pude deixar de reparar em algumas coisas bizarras, como uma senhora com casaco de pele e na cabeça orelhas de coelho iluminadas, duas moças com chapéu de aniversário de criança e gente berrando. Nossa, como berravam! Eu achei que isso era coisa de carnaval na colônia; nunca pensei que fosse ver isso em Paris. Enfim, enquanto analisávamos os modelitos nada fashion, passamos a Pont Royal, o Musée d’Orsay, a Pont de la Concorde. O Douglas olha para o outro lado do rio, vê a roda gigante e fica preocupado:
           - Aquela não é a roda gigante que está no final da Champs Élysées? Tem certeza de que estamos no caminho certo?
           - Sim, amor, olha lá o Grand Palais. Pertinho tem a Pont Alexandre III; de lá a gente já consegue ver a torre. Que horas são?
           - 11:45.
           Quando íamos atravessar mais uma avenida, o sinal fechou. E como demoram para abrir os sinais de pedestre aqui em Paris. Nessa noite, parece que demorou mais ainda. Quando abriu, seguimos correndo pelas margens do Sena: tínhamos que chegar até a torre. Afinal eu tinha dado aquela ideia de parar tão longe, e agora precisávamos correr para chegar a tempo. Passamos pela Assembleia Nacional e chegamos à Pont Alexandre III, a mais linda de todas. Desse ponto, realmente dava pra ver a torre, mas resolvemos chegar mais perto dela. Caminhamos mais uns minutos e paramos na Pont de l’Alma. O Doug olhou pro relógio e disse que já era meia-noite.
           -  O teu relógio deve estar adiantado.
           A torre estava só com a iluminação de costume. Muitas pessoas por ali, mas nenhum sinal de contagem regressiva. Esperamos mais uns minutos e...
           - Olha, a torre está piscando!
           - Oba, vou filmar agora pra não perder a virada.
           Terminei o vídeo e nos abraçamos. Não importava se já era meia-noite. Estávamos em Paris!  Depois de longos abraços, olhamos para a torre, e ela já tinha voltado ao normal.
           Enquanto esperávamos os fogos e a contagem regressiva, resolvemos andar mais um pouco e chegar mais perto. Só que, nisso, nos deparamos com uma multidão caminhando e gritando em direção ao metrô. Então chegamos à conclusão de que não haveria fogos nem contagem regressiva. Nosso abraço tinha sido na hora certa, porque 2011 já tinha começado. Demos meia volta e marchamos com o povo. Paramos num dos muros do Sena e ficamos olhando os barcos iluminados passando. Meia-noite e dez, pra nossa surpresa, vimos três fogos de artifício. Três! Meu pai sozinho, armado de uma garrafa pet com cal dentro faz mais barulho que toda essa gente.  
         Meia-noite e meia resolvemos ir para casa e tomar a sobra da champagne. Rindo, é claro, da nossa maratona de quilômetros para ver a torre piscando por três minutos, dos franceses que usam enfeites natalinos no réveillon, da falta de fogos que faz com que as pessoas gritem mais alto ainda, mas felizes, por estarmos em Paris, por nos darmos tão bem e também por ter descoberto que o réveillon no litoral gaúcho não é tão mau assim.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Noël

             A Champs-Élysées, avenida mais glamourosa de Paris, que vai do Arco do Triunfo até a Place de la Concorde, está toda enfeitada para as festas de final de ano. Além de todas as luzes, acontece, desde o dia 19 de novembro até o dia 2 de janeiro de 2011 o Marché de Noël, que é uma espécie de feira com barraquinhas que vendem comida, roupa e todo tipo de souvenir que você possa imaginar. Na Place de la Concorde está instalada uma roda gigante do tamanho do obelisco. Descemos na estação Franklin Roosevelt, que fica no meio da grande avenida. Caminhamos até o Arco e voltamos em direção à roda gigante pelo outro lado. Ursos dançantes, papais noéis acrobatas, árvores animadas, esculturas de gelo. Ao contrário das luzes, os preços não eram nada atrativos, então só compramos uma pizza para degustarmos durante o passeio, para desespero das mãos desenluvadas.









sábado, 25 de dezembro de 2010

Maison de Victor Hugo

           Domingo passado fomos visitar um apartamento em que Victor Hugo morou. Ele fica na Place des Vosges, a mais antiga de Paris. Chegamos lá e nos deparamos com uma exposição de fotos de escritores que acontece no andar de baixo do apartamento, então aproveitamos para conferir a exposição também. Dentre as coisas que vimos, as mais fascinantes foram: as penas que Victor Hugo usou pra escrever “Os miseráveis” expostas num balcão de vidro; o livro “Lucrécia Bórgia” todo rabiscado pelo autor, mesmo depois de publicado, e uma escrivaninha em seu quarto, planejada para ele escrever de pé. Eu só pude pensar em uma razão para isso, que descobri quando puxei a cortina da janela que fica perto do móvel e vi a praça cheia de neve, o colorido do prédio combinando com as árvores e os pássaros sobrevoando o lugar. Estou certa de que ele só resolveu escrever de pé porque aquela vista privilegiada certamente renderia boas inspirações para suas histórias.



 







Este vídeo eu achei no site da prefeitura de Paris, ele fala e mostra um pouco da exposição.


Portraits d'écrivains à la maison Victor Hugo

domingo, 19 de dezembro de 2010

Artistas do metrô

            É muito comum aqui em Paris ver artistas se apresentando no metrô. Dentro do trem ou nas estações. Já vi coisas belíssimas, como uma violoncelista tocando Mozart no Porte de Maillot e uma senhora tocando harpa sentada no chão.
            Claro que tem aqueles que dão vontade de tapar os ouvidos. Tem um rapaz, que vejo seguidamente, que entra sempre numa estação depois da minha. Como desafina aquela criatura! E, pra agravar ainda mais a situação, ele não toca nenhum instrumento, mas canta em cima de uma trilha que sai de uma geringonça estranha e enorme, a qual, além do incômodo auditivo, fica atrapalhando os transeuntes. Duvido que o que ele ganha dê pra pagar almoço e janta.
           Os acordeonistas geralmente são bons, mas são os campeões em escolher músicas chatas, aquelas músicas que todo mundo conhece. Um exemplo é a canção popular russa Dorogoy Dlinnoyu. Que música pegajosa! E eu, sendo brasileira, ainda tenho o agravante de lembrar da versão silviossantista: “Pedro de Lara, lá lalalalá lalá, lalalalá, lalá lalá lalááá” Que merde!
          Tem também aqueles que assustam você. Um dia eu tava indo pro meu curso de francês bem distraída, lendo o Direct Matin, quando uma mulher entrou na estação Denfert-Rochereau. Eu nem dei pela presença dela, até que a mesma começou a cantar uma ópera com o volume no 150. Quase caí do banco de susto. Tudo bem que ela tenha que cantar alto pra todo o trem escutar, e assim poder ganhar mais dinheiro, mas pra mim, que estava bem ao lado, foi insuportável ficar ali. Desci na próxima estação e esperei o trem seguinte.  
          Hoje, na volta do nosso passeio pela neve parisiense, vimos, não um artista, mas uma orquestra de câmera inteira. Eles estavam num dos corredores da estação Châtelet Les Halles, uma das maiores e mais movimentadas de Paris. Algumas pessoas que passavam começaram a se aglomerar para ver o espetáculo. Outras, com pressa, passavam sem dar crédito. Ficamos uns dez minutos ali curtindo o show e ouvindo o estalar das moedas que caíam aos punhados no case do violoncelo aberto no chão. Ainda bem que eles tiveram a ideia de abrir o case do violoncelo, porque no do violino não caberia tanto dinheiro.
           Ou seja, tem tanta gente tocando no metrô de Paris que, pra ganhar dinheiro como músico por aqui, não basta ser bom; também é preciso impressionar.



sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Chorale

             No início de outubro, passando pelo saguão do prédio principal da Cidade Universitária, vi um folder do “Chorale de la Cité Internationale”. Já fiquei eufórica e disse pro Doug: tenho que cantar nesse coro. Anotei o dia dos testes e fui com a voz e a coragem enfrentar o maestro. O teste consistia em solfejar umas notas e também uma melodia que ele tocava no piano, cantar uma música da minha escolha, ler um pedaço de uma partitura batendo palmas e descobrir o tempo dela. Ufa! Graças às minhas aulas de teoria musical, eu consegui.
           Na metade de outubro eu já estava frequentando as “répétitions”. O primeiro dia foi pra matar. Me deparei com umas 80 pessoas, certamente de mais de 15 nacionalidades. O maestro mandou a gente pegar uma dezena de partituras em cima de uma mesa, e já começou o ensaio. Fez um pequeno aquecimento e, voilà, deu ordens para o pianista assistente começar as músicas. Eu estranhei um pouco, pois estava acostumada a ouvir a melodia no piano antes e o maestro passar separadamente todos os naipes. Aqui não; se canta em coral, tem que saber ler partitura e já sair cantando. No primeiro ensaio, eu me assustei um pouco, mas, no segundo, eu já estava adaptada ao método do maestro.  
          O maestro é ítalo-americano, mas com um jeito muito mais ítalo do que americano: fala alto, gesticula e fala muitas línguas. Não que seja poliglota no sentido literal do termo; é que ele fala francês, inglês e italiano, tudo junto, numa mistura que tem que ficar com os ouvidos ligados pra entender.
          Além da língua que só o maestro fala, eu tive que aprender a pronúncia do russo, do polonês, do árabe e do alemão, que são as línguas em que cantamos, além do francês, do italiano, do espanhol e do inglês, que, em comparação com as primeiras, são fichinha.
         Sábado, dia 11, fizemos a nossa primeira apresentação. Eu estava um pouco apreensiva, pois tínhamos ensaiado somente um mês e meio. Porém, o maestro fez milagre, e o concerto foi maravilhoso. Cantamos 13 músicas nas 8 línguas diferentes. Um violoncelista francês e um pianista taiwanês muito bons nos acompanharam. O salão Honnorat lotou e o público fez muito barulho. Teve até um momento em que o maestro fez um solo vocal, o coral de 60 vozes entrou no refrão, e eu senti o palco e o coração tremerem. Como o bis já estava incluso nas músicas e os aplausos não cessavam, tivemos que repetir um dos números. Eu estava muito feliz de estar ali, e enquanto cantávamos o bis, eu esqueci da partitura e comecei a lembrar das pessoas dos corais pelos quais passei. Como eu queria que todos estivessem ali vivendo aquele momento comigo!
           Desci do palco em estado de êxtase e logo encontrei o meu amado e a Moeko. Os dois foram os meus fotógrafos. Depois da apresentação, fomos nós três e a Anna conversar e beber no Quartier Latin.
           Descobri que os corais são parecidos em todo o mundo: o figurino de Natal é preto e vermelho, o maestro é sempre uma figura, o coro começa com um certo número de cantores e, no dia da apresentação, só tem um pouco mais da metade. E, apesar de você achar que as coisas ainda não estão prontas, sempre vai ter alguém na plateia que vai chorar.

         Dedico este texto, as fotos, o meu carinho e Paris à maestrina e aos maestros da minha vida: Cibele Tedesco, Martin Altevogt, Juliano Volpato e Ivan Montanha.










Vídeos:

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Arigatô

          Sexta-feira nossa “soireé” foi incrível! Minha amiga Anna Konishi nos convidou para jantarmos na “Maison du Japon”. Minha identificação com os orientais aumentou ainda mais depois desse encontro. Eles falam baixo, não fazem alarde, são organizados, mas nem por isso deixam de ser receptivos e simpáticos. Eu os adoro!
           Éramos quinze pessoas mais ou menos, na sua maioria de japoneses, mas também tinha uma italiana, uma francesa, uma sueca que mora na Áustria, um tunisiano e o nosso amigo Gonzalo, que conhecemos aqui na França, mas que é tão gente boa que parece que é nosso amigo há vinte anos.
          Entre um sushi e outro, que estavam uma delícia, acompanhados de um saquê tão doce quanto perigoso, e no meio de tanto japonês, me lembrei de uma hipótese da qual ouvi falar uma vez: de que o “arigatô” dos japoneses tem origem do “obrigado” de Portugal. O Gonzalo me olhou com uma cara estranha e, duvidando, foi perguntar para um japonês. O japonês disse que não sabia da história, que era pouco provável, e ainda explicou que arigatô vem de uma palavra em japonês “arigatashi” que em português significa “raro”, “muito especial”. Mas depois ele explicou que algumas palavras do japonês vêm realmente do português, pois os portugueses e os espanhóis foram os primeiros europeus a aportarem no Japão e que, por exemplo, a palavra japonesa “boro” vem da palavra em português bolo.
          O Gonzalo, sempre espirituoso e aproveitando do fato de que eu estava errada, resolveu, então, tirar um sarro da minha cara: disse que ele também tinha ouvido falar que a bandeira do Japão era inspirada na bandeira da Argentina, pois aquela bola vermelha era realmente muito parecida com o sol. O japonês só ria. Ele devia estar pensando: esses sul-americanos são muito esquisitos!        
          Uma coisa que percebemos foi que, em um mês, o nosso francês melhorou dinossauricamente e podemos dizer com orgulho que, nessa festa, nenhuma história ficou sem um final por falta de vocabulário. Praticamente não usamos o portunhol, salvo uma hora em que o argentino perguntou o que significava “vai embora” em português. Explicamos que essa expressão é usada quando queremos que uma pessoa desapareça da nossa frente.
          Na saída, a Moeko nos mostrou o seu quarto. Ao contrário dos apartamentos compactos japoneses que vemos na tevê, os quartos da Maison du Japon são bem espaçosos, têm estante pra colocar muitos livros repletos de ideogramas e paredes de uma sobriedade que nos fizeram lamentar o colorido dos quartos da Maison du Brésil. Depois, junto com o Gonzalo, nossa amiga nos levou até o acesso a um outro corredor. Eu já ia abrindo a porta, quando o Gonzalo se pôs na nossa frente.  Eu disse que era bom mesmo ele abrir, pois assim nós voltaríamos mais vezes. Essa superstição ele não conhecia, mas, quando estávamos no fim do corredor, chegando na porta da saída, ele nos chamou e pediu para esperarmos. Então, veio correndo abrir a porta pra nós voltarmos mais vezes e, mostrando que já é um bom aluno de português, fez os últimos cumprimentos: vai embora!