Quem sou eu

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Meu nome é Renata, sou professora de francês desde 2011. Sou formada em Letras : Língua e literatura francesa UFRGS. Tenho experiência no exterior, fui aluna da Sorbonne - Université Paris IV e também do Intitut Privé Campus Langues - Paris, fiz o estágio de professores de francês do Cavilam em Vichy. Fui professora e coordenadora da Aliança Francesa de Caxias do Sul por 8 anos. Atualmente tenho minha própria escola on-line de francês chamada Renatatouille_francês onde ministro aulas particulares ou em grupo pela plataforma Zoom.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Centre Pompidou

             O tempo está passando rápido; metade já foi, só nos restam quatro meses e meio. Paris é gigante. Impossível ir a todos os cinemas, a todos os teatros e a todos os museus. Só ao Louvre precisaremos ir mais umas três ou quatro vezes pra ver todo. Domingo fomos ao Centre Pompidou, um importante museu de arte moderna e contemporânea. Além da exposição permanente, vimos uma mostra de artistas feministas. Algumas das obras são tão chocantes quanto a arquitetura do prédio, que já tínhamos namorado por fora várias vezes. Aí vão algumas fotos:




















sábado, 5 de fevereiro de 2011

Quando o sol deixava Veneza...

            ... eles estavam na nossa frente, parados na Ponte dell'Accademia. Ele usava botas e um sobretudo preto da cor dos seus olhos e de seus cabelos longos; ela estava de moletom, calça jeans rasgada, tinha os cabelos castanho-claros enrolados até o ombro e os olhos tristes e verdes. Enquanto o Douglas me erguia do chão, me balançava e ameaçava carinhosamente me jogar da ponte, eram eles que tiravam a minha atenção. Conversavam sem se olhar, como apaixonados sem esperança. De repente ela saiu e ele foi atrás. Ao mesmo tempo, nós resolvemos ir pro hotel e tomar um banho para, à noite, caminharmos por Veneza, pois quando a cidade dormisse, quando tudo estivesse fechado, ela seria só nossa.
           Chegando ao último degrau da ponte, eles pararam. Eu via de longe, pois caminhávamos muito devagar. Sem se despedir e com lágrimas nos olhos ela o afastou com as mãos, deu as costas e seguiu sozinha. Ele ficou parado e falou alguma coisa que eu não entendi. Ela olhou pra trás, engoliu o choro, baixou a cabeça. Algo no seu rosto dizia que ela não poderia ficar: continuou andando. Passamos por ele. Eu olhei nos seus olhos e vi que, como o resto do corpo, eles estavam imóveis. Pedi pro Douglas para pararmos um pouco. Fingi que olhava uma vitrine de máscaras e esperei pra ver como acabaria aquela história. Ela indo embora, com as mãos nos bolsos; ele, estático, com os olhos fixos nela, tentava evitar que o rosto expressasse o que sentia. Eu queria cutucá-la, sacudi-la, gritar no seu ouvido pra que voltasse lá e desse um abraço nele. Ao mesmo tempo, torcia para que o cara mumificado aos pés da ponte se mexesse, corresse atrás dela e lhe desse um beijo cinematográfico. Mas nada. Ela sumiu das nossas vistas e ele continuou lá, como Veneza: parado no tempo.  Apertamos as mãos e seguimos para o hotel.
 No dia seguinte, casualmente passamos pela mesma ponte, e meus olhos procuraram o rapaz, com a estranha impressão de que ele ainda estaria lá, esperando. Ou mesmo, quem sabe, a moça tivesse voltado, e estariam os dois novamente juntos, dando um final feliz para a história triste do dia anterior... Mas, para minha surpresa, naquele mesmo lugar, vi, não mais o mesmo, porém um outro casal, feliz, se abraçando e sussurrando ternamente no ouvido um do outro.
             Assim é Veneza: o palco perfeito para os desencontros, mas também para os que se encontram. A Sereníssima vai ter sempre um lugar especial na minha memória romântica. E sei que, se um dia eu voltar lá, passarei pela mesma ponte e lembrarei dos casais, e contemplarei os rios, que como os amantes, mudam a cada segundo. A cidade, que por seus prédios seculares e suas ruelas antigas parece ser sempre a mesma, sutilmente se transforma com os seus amores que vêm e vão.










sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Greve ou máfia italiana? Parte II

           Que noite mal dormida aquela! Incontáveis pesadelos, e ao final de cada um cada um eu acordava e sentava assustada na cama. Às seis horas eu não aguentei mais aquela noite de cão e pulei da cama. O Douglas dormia tranquilamente, apesar de eu tê-lo ouvido se mexer muito durante a noite. Fui até a janela, afastei um pouco a cortina e fiquei espiando. Dez, quinze minutos e nada. O Douglas acordou, me olhou, limpou os olhos e perguntou: o que tu tá fazendo aí a essa hora? Então eu respondi sem olhar pra ele, pois não podia tirar os olhos da rua: estou conferindo se vai ter ônibus ou não. Nisso, eu vi um ônibus passando; não consegui ver a linha, mas já era um sinal: realmente o hoteleiro nos mentiu, pois ele tinha dito que nenhum transporte público funcionaria.
           Guardamos todas as nossas coisas, tomamos o café e fomos fazer o check-out. Eu já fui preparada pra ser passada pra trás de novo. Certo que ele vai querer cobrar mais do que o combinado na reserva. Ele estava todo atrapalhado, não sabia se já tínhamos pago para a empresa que havia reservado o hotel ou se tínhamos que pagar pra ele. Então eu disse bem séria e dando a entender que tinha toda a situação sob controle: não pagamos ainda; o contrato dizia que tínhamos que acertar direto como o hotel. Ele somou, pensou, olhou várias vezes os papéis e disse o valor. Hã?  Menos do que eu tinha calculado! O senhor somou o frigobar? Opa, esqueci!, disse ele. Muito estranho! O cara que queria tirar um por fora com o transporte, cobrando a menos, agora devia estar querendo se redimir pela mentira. Tudo bem, pagamos a conta e arrivederci Eu só queria cair fora daquele lugar.
            Fomos até a parada e, como eu tinha visto pela janela, não demorou nem dez minutos e lá vinha ele, como todos os dias: o 558. Sentamos e ficamos rindo do cara do hotel. Ele havia tentado nos enganar, mas nós tínhamos sido mais espertos que ele: não caímos na sua cilada. Descemos na Subaugusta e estranhamos o grande aglomerado de gente na parada. Fomos em direção ao metrô. Mais gente por ali, conversando paradas em frente à entrada. Foi difícil conseguirmos chegar perto. Quando conseguimos passar por todas aquelas pessoas, que pareciam não entender nada, a surpresa: Metrô fechado! Não é possível!  Os italianos que estavam ali conversando não sabiam o que estava acontecendo, mas nós sabíamos: GREVE!
            Agora a história mudou. Coitado do cara do hotel! Ele tinha tentado nos avisar e a gente fazendo mal juízo dele... E o cara do bar é que havia mentido pra manter o segredo! Mas e agora? Como vamos até o aeroporto?
            Ficamos ali, em frente à Via Cinecittà, junto com os italianos, esperando um ônibus que fosse até o centro da cidade. Duas horas de espera e nada. A única linha que estava funcionando era a 558, só que ela não ia até a estação Termini; ela faz só os arredores de Roma. Estamos ferrados!
           Bom, agora vamos ter que pôr em prática aquele nosso primeiro plano: carona. Pois os táxis não paravam. Pra não ter que ficar com o polegar pegando frio, a gente cuidava as pessoas que saíam dos estacionamentos. Foram muitas tentativas, e a desculpa era sempre a mesma: Não vou pro centro, vou pro outro lado. O bom é que tínhamos tempo, mas, apesar disso, já havíamos desistido do nosso passeio até a Appia Antica. Já era meio-dia, tínhamos que estar no aeroporto no máximo até as sete horas e não sabíamos ainda como faríamos. Precisávamos chegar até a estação Termini porque, de lá, podíamos pegar, em sentido contrário, o mesmo transfer que tinha nos levado do aeroporto até o centro de Roma. Esse devia estar funcionando, já que não é público.
           Nisso um careca parou o carro; ele estava esperando alguém. Fomos até ele. Oi, precisamos de uma carona até o Termini. Ele fez sinal pra nós que a sua mulher estava chegando e que ela saberia nos informar melhor. Quando ela chegou, ele explicou a situação e ela nos aconselhou: vocês devem pegar a linha A do metrô; ela vai direto até a estação central. Então tivemos que contar para a senhora italiana que não tinha metrô, que estava fechado, greve geral. Ela ficou surpresa. Pensou um pouco e disse: que pena, não podemos ajudar, não vamos em direção ao centro, moramos do outro lado da cidade. Explicamos que tínhamos que ir até o aeroporto, e perguntei se o Termini ficava longe dali, e qual era a direção. Ela apontou para aquela mesma avenida em que estávamos e disse: sigam sempre reto, seis ou sete quilômetros e vocês estarão lá.
            Agradecemos pela informação e começamos a caminhada. Calculamos que em duas horas chegaríamos. Como já era uma hora da tarde, às três horas estaríamos no Termini. Mais uma hora do tranfer, chegaríamos a tempo no aeroporto. Dez minutos de caminhada e minhas costas começaram a doer. Eu fui só com uma mochila, mas ela pesava uns dez quilos. O Douglas então se ofereceu para carregá-la, apesar de já ter a sua que também devia estar pesada. Então, começou a bater um desespero. Eu não estou acreditando nisso!, Vamos perder o dia todo aqui em Roma por causa dessa maldita greve. Nisso alguém bateu no nosso ombro. Era a mulher que tinha nos indicado a quilometragem: Vocês precisam de transfer para o Fiumicino?, Eu descobri um lugar onde tem transfer pra lá; fica no caminho pra nossa casa; venham conosco.
            Santa italiana! Ela veio atrás de nós pra nos ajudar. Nunca mais penso mal dos italianos. Entramos no carro e nos sentamos junto com a filha do casal. Perguntei pra onde estavam nos levando. Ela disse que o nome do lugar era Ostia e que de lá saíam vários transfer para o aeroporto. Papo vai, papo vem, e eles resolveram nos levar até o aeroporto. Eu hesitei, afinal eles já estavam fazendo demais pela gente. Não tem problema, disse ela, vamos desviar somente uns sete quilômetros do nosso caminho. Além do mais, o transporte é capaz de cobrar muito caro de vocês.
            Finalmente chegamos ao Aeroporto Leonardo da Vinci, vulgo Fiumicino, cinco horas antes de sair o voo. Quis retribuir a gentileza e já fui puxando a carteira. A italiana não aceitou. Pelo menos pela gasolina... Imagina!, disse ela. Foi um prazer conhecê-los. 
            Descemos do carro dizendo grazie sem parar. A novela tinha terminado. Os italianos são barulhentos, extravagantes, mas bonzinhos; o único que mentiu foi pra proteger o movimento operário. Aproveitamos o chá de aeroporto para sonharmos acordados, dessa vez um sonho maravilhoso com o nosso novo destino: Veneza.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Interpretação dos sonhos, versão ilustrada!

          Você está sonhando que está no metrô de uma grande cidade, muitas pessoas circulam pelo lugar e você não consegue identificar em que país você está. Aí vão algumas dicas:

          Se na escada rolante, as pessoas estiverem paradas do lado direito deixando espaço pra quem quiser subir caminhando pela esquerda, você está na França. Se a escada rolante estiver tomada de gente dos dois lados, ninguém consegue passar e um começa xingar a mãe do outro, então você está na Itália.  
          Quando o metrô parar, caso as pessoas que estejam fora esperem as pessoas de dentro do trem descerem e depois você consiga subir tranquilamente junto com elas, voilà, você está na França. Se o trem parar, e der uma confusão de gente se empurrando quando a porta abrir, pois os que estão dentro querem sair e os que estão fora querem entrar, tudo ao mesmo tempo tipo salve-se quem puder, parabéns, você está na Itália.
          Dentro do trem, uma voz feminina suavemente anuncia as paradas. Você vai descer, mas antes, ao lado da porta você vê o desenho de um coelhinho que acabou de prensar a patinha: é o aviso do metrô de Paris para não colocar a mão na porta depois do apito do trem, pois ela vai fechar. Mas se antes de descer, você ouvir uma estridente voz masculina, levar um susto, olhar para a porta e vir quatro desenhos: um homenzinho caindo do trem, uma mão sendo prensada, outro homenzinho caindo no valo entre o trem e a passarela e um último sendo praticamente esquartejado pela porta: Benvenuto!



terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Greve ou máfia italiana?

           Nos últimos três dias em que ficamos em Roma, caminhamos muito pela cidade, ficamos umas seis horas no Vaticano e seus museus, fomos aos Musei Capitolini e ao Parco della Musica. Deixamos o último dia para ir à Appia Antica, pois o nosso voo para Veneza só sairia às oito horas da noite. Mas chegando ao hotel recebemos uma notícia que mudaria todos os nossos planos.
            Perguntamos ao recepcionista, aquele mesmo que tinha nos dito que na Itália não tem assaltos, se ele sabia de algum trem que fosse direto ao aeroporto. Amanhã?, disse ele. Sim, amanhã; precisamos saber qual é a linha que devemos pegar até o Fiumicino. Foi aí que veio a bomba: Não, amanhã não tem transporte em Roma. Tudo parado! Greve geral! Como? Não é possível, temos que pegar o avião. Ele, bem calmo só balançou a cabeça negativamente e disse: difícil saírem daqui amanhã. Com muita sorte, vocês conseguem um táxi, mas preparem o bolso. O senhor está brincando com a gente? Ele levantou a mão direita e, com um sorrisinho malicioso, parecendo adorar nos ver sofrer: juro que é verdade! E ainda emendou: me pediram para participar da greve, mas eu não aceitei. Então, baixou a cabeça, voltou a trabalhar e nos deixou ali plantados sem saber o que fazer.
           Fomos para o quarto pensar. E agora? Como vamos fazer pra ir desse fim de mundo até o centro de Roma? A pé é muito longe. E táxi vai custar uns 200 euros. Além do mais, com greve, vai ser difícil conseguir algum. Não queríamos acreditar na notícia que tinha desabado sobre nós um dia antes da viagem pra Veneza. Ficamos quebrando a cabeça, matutando como faríamos pra ir até o centro. Só tem uma solução, eu disse: carona. A gente vai pra beira do asfalto com uma placa escrita aeroporto. Alguém vai ter que parar. Então o Douglas disse: Não pode ser verdade, não vi em lugar algum a notícia da greve. Nisso eu lembrei de ter lido um anúncio na cartilha do hotel. Fui olhar e... Lá estava, com fonte 30: “Temos transfer para o aeroporto, combine preços com a recepção”. Então é isso, não tem greve coisa nenhuma; o cara do hotel está nos passando a perna. Ele quer que a gente peça pra ele nos levar até o aeroporto e vai cobrar o que quiser!
            Pra descargo de consciência, ligamos a televisão esperando alguma notícia, pois na França, quando tem greve, eles avisam nos jornais e publicam até os horários dos poucos ônibus que irão circular. Sentamos em frente à TV: meia hora de desastres pelo mundo e nada de notícia sobre a greve. Não pode ser; uma greve secreta não existe! Pois é, então a imprensa não sabia da greve e os brasileiros aqui sabiam? Muito estranho.
Depois de sofrer durante mais de uma hora, tivemos a ideia de ir até o bar em frente ao hotel na tentativa de pescar alguma informação. Entramos na bodega: dois desdentados jogando fliperama e nós. Pra não dar bandeira, pedimos uma cerveja e começamos a ler o jornal que estava em cima da mesa. Nada sobre a greve. O hoteleiro estava mentindo. Chamamos o garçom pra acertar a conta, e foi aí que perguntamos: O senhor sabe se amanhã terá ônibus normal? O senhor está sabendo de alguma greve?
O dono do bar ficou verde, anil, amarelo, cor-de-rosa e carvão e, olhando pro luminoso do nosso hotel,  perguntou desconfiado: Quem falou isso pra vocês? Vocês estão no hotel da frente? Eu, já pressentindo as segundas intenções da pergunta, respondi: Não. Hotel? Qual hotel? Ele respirou fundo, secou as mãos no avental, depois apertou uma contra a outra, fez uma cara de desaprovação e, já roxo, começou a nos dar as coordenadas: Peguem o 558 até a estação Subaugusta e depois o metrô até a estação Termini. E logo, antes que eu perguntasse mais alguma coisa, ele voltou para trás do balcão. Enquanto o Douglas guardava o dinheiro, eu espreitava os movimentos do sujeito: ele continuava nervoso, cochichava com o companheiro de bar e nos olhava com o canto do olho.
           Saímos. E agora? Não podemos atravessar a rua para entrar no hotel, senão ele vai saber que mentimos. Andamos uns 100 metros, paramos na calçada e discutimos a veracidade da nova informação. No início estava claro pra nós: o dono do bar era cúmplice na armação do hoteleiro e só nos falou do ônibus porque acreditou que não éramos hóspedes. Mas depois levantamos outra hipótese: É claro que ele não acreditou que não éramos do hotel! O que dois estrangeiros estariam fazendo nesse lugar deserto? O cara do bar nos enganou; ele sabe da greve, mas mentiu pra tentar proteger a honra do movimento. Se o bodegueiro olhou pela janela com cara feia foi porque ficou nervoso pelo fato de o hoteleiro ter nos contado sobre a paralisação.
           Depois de vinte minutos gelando na calçada, atravessamos a rua longe das vistas do nosso informante e, passando em frente ao circo, seguimos em direção ao hotel. Eu ergui o colarinho do casaco tentando me disfarçar e entrei primeiro; o Douglas veio logo atrás. Chegamos ao portão com o coração saindo pela boca e ainda esperamos uns minutos antes de entrar pro cara do hotel não perceber o nosso nervosismo.
          Pedimos a chave do quarto enquanto eu olhava fixo pra cara do hoteleiro pra ver a reação dele. Com certeza ele sabia que tínhamos ido nos informar sobre a greve. Seria capaz de pedir explicações? Nos ameaçaria com uma faca escondida embaixo do balcão? Enfiaria a chave do quarto no meu olho? Arrastaria nossos corpos para uma câmara de tortura subterrânea? Não. Ele foi mais maquiavélico do que isso: nos deu a chave e, junto com ela, um sorriso amarelo.
          O negócio é que estávamos na estaca zero de novo. Tem ou não tem greve? As informações eram contraditórias e o nosso problema continuava. Pensamos, então, numa terceira hipótese: o dono do bar fez cara feia quando olhou pro hotel porque sabe que o hoteleiro é falcatrua e vive enganando os turistas, e ficou nervoso por ter que desmentir o vizinho. Ou seja, não vai ter greve. O hoteleiro é um mentiroso.
          Sentamos na cama e ficamos umas duas horas tentando achar uma explicação para aquilo. Eu estava com medo de que o dono do bar invadisse o hotel com todo o movimento operário italiano e que fôssemos vítimas de uma queima de arquivo internacional para manter o segredo da greve. De qualquer modo, estávamos em maus lençóis: se o hoteleiro falou a verdade, estamos sem transporte para o aeroporto e acabamos de entregá-lo como fura-greve pro dono do bar; se ele está mentindo pra tirar uma graninha por fora com o seu transporte, bem pode ser capaz de coisas piores, como superfaturar a nossa estada ou cobrar o uso do chuveiro por minuto.
          Independente disso, tínhamos que dormir. A única solução será esperar o dia seguinte para descobrir a verdade: se o 558 passar, o hoteleiro é mentiroso, mas temos transporte pro aeroporto; por outro lado, se ele não passar, o dono do bar é que nos mentiu, o hoteleiro é fura-greve, e dependeremos de uma carona pra não ficarmos presos em Roma, sem hotel para a próxima noite, abandonados à lona do circo italiano. Arrisquem seus palpites e aguardem o próximo capítulo para descobrirem como noi siamo partiti.
















domingo, 30 de janeiro de 2011

Recepção italiana

            Um mês atrás começamos os preparativos para nossa viagem à Itália. Escolhemos Roma e Veneza e reservamos pela internet os hotéis e as passagens mais baratas que apareceram. Sábado, embarcamos pelo aeroporto de Beauvais só com uma mochila cada um, pois a nossa passagem de 15 euros não previa envio de bagagem. Já no avião começamos a entrar no espírito italiano quando a aeromoça chefe apresentou a comissão de bordo: Betina, Albertina, Martina.
          Que voo barulhento esse da Ryanair! Um bebê chorando, um velho rabugento reclamando o tempo todo do bambino e as aeromoças que não pararam um segundo de vender coisas: comida, cartão de celular, cigarro, cosméticos, jogo de bingo... Uma hora e meia de algazarra e chegamos a Ciampino, a uns 30 quilômetros de Roma, anunciado no avião com um toque de corneta: sobrevivemos. Logo na saída do aeroporto, pegamos uma discussão em voz alta e baixo nível entre uma senhora e três homens, repletas daqueles palavrões italianos que nós bem conhecemos, e nos sentimos felizes por estarmos em Roma. Depois, vimos uma mulher fazendo sinal e gritando: rápido, rápido que o ônibus vai sair. Era o transporte que nos levaria até o centro da cidade. Sabe quando na França alguém vai ficar te chamando porque o ônibus vai sair?...
         Chegamos à estação Termini, onde se cruzam as linhas de metrô da cidade e também de onde partem todos os trens para os arredores. E nós, só com o endereço do hotel, que ficava a uns 10 quilômetros ao sudeste dessa estação. Nossa sorte é que os italianos, diferente dos franceses, adoram dar informação; tem uns que além da informação te acompanham até o lugar onde você precisa chegar. Foi uma dessas almas que nos indicou o trenino, uma espécie de metrô medieval cheio de gente se estapeando amigavelmente. Ele andava tão devagar que eu achei que não chegaria nunca. E já fiquei preocupada: se tivermos que pegar sempre esse trem pra chegar até o centro, vamos perder umas duas horas por dia. Desembarcamos do trenzinho e, depois de mais umas informações, encontramos o hotel. Imaginem a seguinte cena: um hotel na beira de uma rodovia, tendo do lado direito um terreno baldio, do lado esquerdo um circo e na frente um boteco decorado com luzes vermelhas. Chegamos mortos de cansados, mas o recepcionista, todo atrapalhado, ainda demorou pra achar nossa reserva. Pra nossa tranquilidade, o quarto era grande e o banheiro e a cama impecáveis.
              Depois de um banho quente, mesmo exaustos, resolvemos aproveitar o resto do dia. Voltamos a recepção. O italiano fez cara feia quando perguntamos se tinha um modo mais rápido de chegarmos até Roma sem ter que usar aquele trenino. Vocês estão a pé? Precisam de transporte público? Depois de resmungar italianamente, ele nos indicou um ônibus que passa em frente ao hotel, linha 558; disse para pararmos na estação Subaugusta e pegarmos o metrô até a estação Termini.  Quisemos também saber se era perigoso andar à noite por aquela região desértica com palhaços assassinos – It! – na vizinhança. Ma! Então ele tinha que ouvir os brasileiros achando que na Itália é que tinha assalto...
Os italianos são muito engraçados e a grossura deles não nos faz mal como a dos franceses. É uma grossura espontânea e familiar, por isso não consegui ficar chateada com ele. Depois de agradecermos pela informação, testamos a sua dica e, em 40 minutos, estávamos novamente no centro de Roma. Assim, terminamos o sábado sentados em frente à Fontana di Trevi. Che dolce vita!
          No segundo dia, acordamos muito cedo, tomamos café no hotel e saímos com o 558, que passa a cada 20 minutos. Fomos ao Fórum Romano, ao Circo Massimo e ao Museo del Risorgimento, que fica dentro do monumento a Vittorio Emanuele. Mas antes, no Coliseu, a peculiar receptividade italiana deu suas provas novamente: fomos perguntar em italiano, para uma funcionária, onde era a entrada do Fórum Romano, e ela, querendo ajudar: Quale lingua?
Diante da pergunta inusitada, pensei: a guardinha é poliglota. Então respondi:
-       Português.
-       ...
-       Francês.
-       ...
-       Inglês.
-       ...
-       Espanhol.
-       ...
-       Italiano.
-       Va bene. Siga reto por aquela rua e na próxima você pega a esquerda.
     Que língua será que ela fala além de italiano? Tcheco?
Voltando pra casa vimos outra discussão, agora de um casal. Ela andava uns metros a pé xingando a mãe dele. Ele, de carro atrás dela, parava a cada dois metros e abria a porta pra ela entrar. Ela, então, dizia que nunca mais ia falar com ele. Ele, gesticulando muito, implorava: Amore, andiamo. Depois de o carro andar e parar umas seis vezes, ela resolveu entrar, fechando a porta com uma pancada.
Para nós, tudo era divertido. Até porque, por enquanto, não éramos nós que estávamos envolvidos naquela confusão nacional. O que era só uma questão de tempo.









domingo, 16 de janeiro de 2011

Tratamento armênio

          Sexta-feira, estação do metrô lotada de gente apressada. Eu e uma amiga caminhávamos sem nos importar com o empurra-empurra. Estávamos indo para a última aula de phonétique do semestre, felizes da vida. Eu olhava distraída uns cartazes de filme, quando sinto uma coisa roçando a minha perna. Um segundo depois, tive a nítida impressão de que era uma coisa peluda e grande, pois ela encostava também na minha mão. Foi a hora do salto. Voei pra cima da minha colega, que teve que se escorar na parede pra não cair. Hesitei uns segundos a olhar pra frente, mas como não podia ficar ali minha vida toda, resolvi encarar a realidade. Era um cão. Enorme! Seguido por seu dono de cabelos espetados, com fones nos ouvidos, que nem percebeu o que tinha acontecido.   
           Um cara que vinha atrás de nós não disfarçou: passou ao nosso lado, me olhou e soltou uma gargalhada. Eu olhei pra ele com cara de: O que foi idiota? Garanto que quando você vê uma aranha solta aquele gritinho fino e abana as mãos histericamente na altura do peito!
            Ignorei o abestalhado e, vendo que o dócil cãozinho não era nenhum monstro de sete cabeças e que mais animal era o seu dono, que nem se dava o trabalho de desviar das pessoas, continuamos nosso caminho, quando de repente fui privada da minha visão por um balde d’água na cara. Eu estava subindo as escadas em direção às roletas e quase me desequilibrei com a intensidade do jato. Enquanto eu secava a água dos olhos com o casaco e tirava o cabelo escorrido da cara com uma mão, com a outra eu tinha que sacar o cartão do bolso e passar a roleta do metrô antes que a multidão me pisoteasse.
Depois de muita dificuldade e sem saber se a roleta era roleta mesmo ou se era algum portal que me levaria dessa para uma pior, consegui chegar ao outro lado. Pra meu alívio, eu não estava no inferno, a não ser que o cachorro e a minha colega armênia tivessem vindo junto comigo. Desisti dessa segunda hipótese quando vi o trem parado e com as portas abertas: não deve ter essas praticidades no submundo. Na dúvida, deixei minha amiga entrar primeiro. Quando botei o pé pra dentro do trem, vi a big pata do animal a menos de um metro de mim. Recuei, corri uns metros e entrei no outro vagão. Minha amiga, que já estava sentada, levantou e veio atrás de mim, e por pouco não foi prensada na porta que já havia dado o sinal de que iria fechar. Eu me joguei no banco e fiquei tentando entender o que tinha acontecido. De onde tinha vindo toda aquela água? Tirei minhas luvas da bolsa e terminei de me secar, enquanto todo o trem me olhava, inclusive minha amiga, que se sentou no banco da frente. Depois de um longo silencio, ela me perguntou: Passou o susto? Eu balancei a cabeça positivamente, mesmo sem entender nada. Foi então que veio a revelação: Desculpa ter te molhado, mas é que, na Armênia, sempre jogamos água quando uma pessoa leva um susto, pra evitar que ela fique com transtornos mentais...
       Hã?
      Olhei pra ela com uma vontade absurda de pegá-la pelo pescoço e arremessá-la pela janela do trem. Quando estava criando forças, ela tirou a garrafa de um litro da bolsa e me disse sorrindo: Agora não tenho mais água pra tomar durante o dia, mas estou feliz por ter te ajudado.
         Levantei do banco e fui em direção a ela. Calma, eu não matei ninguém! Pelo contrário; eu a abracei, tirei a minha garrafa d’água da bolsa e dei para ela beber. Afinal, graças a seu instinto rápido e sua crença, eu não voltarei para o Brasil com um parafuso a menos.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Alice au Pays de Burton

          Chega uma hora em que a festa acaba e a rotina bate à porta, o que não quer dizer que os dias se tornem monótonos. Estava indo hoje para a Sorbonne e, como de costume, quando entrei na estação do metrô, fui em direção à caixa de jornais que são distribuídos gratuitamente. Geralmente, intercalo entre o Direct Matin e o Direct Soir, mas hoje resolvi pegar o A Nous Paris, pois vi Sofia Coppola na capa. Entrei no trem, abri o jornal e, de cara, recebi um convite irrecusável: Une nuit avec les Coppola, sessão de cinema com filmes da família Coppola que começará à meia-noite do próximo sábado e terminará com café da manhã no domingo. Podemos escolher três filmes para ver durante a madrugada. As opções: Encontros e Desencontros, Maria Antonieta, Uma Segunda Juventude, As Virgens Suicidas, Tetro e Drácula. Já temos programa para o fim-de-semana. Os jornais franceses são forrados de reportagens sobre filmes, peças de teatro, música, literatura, museus, dança. Claro que eles têm propaganda também, mas elas só representam 5% do jornal e não 80% como muitos jornais que conheço por aí...
            Depois de terminar de ler uma reportagem de duas páginas sobre Patti Smith, chego à minha estação: Luxembourg. Pois é, eu sou obrigada a passar todos os dias na frente do Jardim do Luxemburgo para chegar até a escola. Prometo não reclamar mais da minha rotina. Quando vou fechar o jornal pra guardar na pasta, o que vejo na contracapa? O coelho apressado! Sim, o coelho do Lewis Carroll, aquele perseguido pela Alice, vestido de Edward Mãos-de-Tesoura. Foi paixão à primeira vista. Nem guardei mais o jornal: cheguei na sala de aula e deixei exposto na minha mesa. Foi quando, para meu desespero, minha colega polonesa, que senta ao meu lado, pegou a caneta e veio reto na pata do coelho. – Nããããoo! O que você vai fazer? eu perguntei assustada, protegendo o meu coelho da violência da sua arte. Vou desenhar alguma coisa, disse entre dentes minha colega, com o braço paralisado. Então, antes que ela sofresse um ataque epilético e investisse com a caneta contra o meu coração, virei algumas páginas e disse: desenhe aqui!, apontando para uma página de shows flash-back disco-punk que não me interessavam.
            Acho que ela se assustou um pouco com a minha reação, pois desenhou um coraçãozinho de meio centímetro, querendo me dizer: desculpa, eu não queria desfigurar o teu coelho. Eu sorri pra ela e fingindo não me importar mais com o jornal, enfiei na bolsa. Imagina, eu chegaria em casa e a primeira coisa que iria fazer seria tirar uma foto do coelho estilizado pra mandar pra Deise, que adora tanto quanto eu o mundo maravilhoso do Lewis Carroll e também do Tim Burton. Quando acabou a aula, eu e Monika, a polonesa, fomos em direção à estação do metrô. No meio do caminho ela me cutuca e diz com desprezo, apontando para uma parada de ônibus: “Voilà, ton lapin”. Meus olhos brilharam: era um cartaz gigante do mesmo coelho. Depois de alguma insistência, pois minha amiga não queria pagar mico no meio da rua, ela finalmente bateu a foto pra mim.
          Voilà, mon Lapin!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Buttes des Chaumont

           Domingo foi o dia de o Douglas olhar o mapa e escolher um lugar para irmos. Como parou de nevar, a temperatura estava positiva e o sol resolveu aparecer, ele escolheu o Parc Buttes des Chaumont, no nordeste de Paris.








segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Virada

          Resolvemos passar a virada de ano às margens do Sena, num lugar que desse pra ver a torre e os fogos de artifício. Preparei nossa ceia de ano novo, jantamos e já tomamos a champagne, pois no site de Paris dizia que haveria guardas barrando a entrada de pessoas com garrafas nas redondezas dos pontos turísticos. Nos últimos anos, muita gente se machucou por causa dos vândalos que quebram garrafa só pra escutar o barulho. Saímos de casa às 11 horas. Todo o transporte público de Paris, do dia 31 às 5 da tarde até o dia 1º de janeiro ao meio-dia era de graça, então já prevíamos bastante gente.
         Sugeri ao Doug pararmos com o RER B na Notre-Dame e caminhar pelo Sena a pé até avistar a torre, pois a linha 6, que dá direto nela, deveria estar atrolhada de gente. Dentro do trem, já vimos que a noite seria agitada: as pessoas estavam gritando histericamente. Quando descemos na Notre-Dame já era 11:20. Pegamos a Rive Gauche e seguimos por ela. Passamos a Pont Neuf, a Pont des Arts, a Pont du Carrousel. Comecei a ficar preocupada com a hora: Que horas são, Doug?  
           - 11:40. Será que vai dar tempo?
           - Vai sim, só vamos apressar um pouco o passo. Apertamos as mãos e começamos a ultrapassar as pessoas que pareciam sem pressa alguma. Aliás, que gente esquisita! Enquanto corríamos para não perder a virada na torre, não pude deixar de reparar em algumas coisas bizarras, como uma senhora com casaco de pele e na cabeça orelhas de coelho iluminadas, duas moças com chapéu de aniversário de criança e gente berrando. Nossa, como berravam! Eu achei que isso era coisa de carnaval na colônia; nunca pensei que fosse ver isso em Paris. Enfim, enquanto analisávamos os modelitos nada fashion, passamos a Pont Royal, o Musée d’Orsay, a Pont de la Concorde. O Douglas olha para o outro lado do rio, vê a roda gigante e fica preocupado:
           - Aquela não é a roda gigante que está no final da Champs Élysées? Tem certeza de que estamos no caminho certo?
           - Sim, amor, olha lá o Grand Palais. Pertinho tem a Pont Alexandre III; de lá a gente já consegue ver a torre. Que horas são?
           - 11:45.
           Quando íamos atravessar mais uma avenida, o sinal fechou. E como demoram para abrir os sinais de pedestre aqui em Paris. Nessa noite, parece que demorou mais ainda. Quando abriu, seguimos correndo pelas margens do Sena: tínhamos que chegar até a torre. Afinal eu tinha dado aquela ideia de parar tão longe, e agora precisávamos correr para chegar a tempo. Passamos pela Assembleia Nacional e chegamos à Pont Alexandre III, a mais linda de todas. Desse ponto, realmente dava pra ver a torre, mas resolvemos chegar mais perto dela. Caminhamos mais uns minutos e paramos na Pont de l’Alma. O Doug olhou pro relógio e disse que já era meia-noite.
           -  O teu relógio deve estar adiantado.
           A torre estava só com a iluminação de costume. Muitas pessoas por ali, mas nenhum sinal de contagem regressiva. Esperamos mais uns minutos e...
           - Olha, a torre está piscando!
           - Oba, vou filmar agora pra não perder a virada.
           Terminei o vídeo e nos abraçamos. Não importava se já era meia-noite. Estávamos em Paris!  Depois de longos abraços, olhamos para a torre, e ela já tinha voltado ao normal.
           Enquanto esperávamos os fogos e a contagem regressiva, resolvemos andar mais um pouco e chegar mais perto. Só que, nisso, nos deparamos com uma multidão caminhando e gritando em direção ao metrô. Então chegamos à conclusão de que não haveria fogos nem contagem regressiva. Nosso abraço tinha sido na hora certa, porque 2011 já tinha começado. Demos meia volta e marchamos com o povo. Paramos num dos muros do Sena e ficamos olhando os barcos iluminados passando. Meia-noite e dez, pra nossa surpresa, vimos três fogos de artifício. Três! Meu pai sozinho, armado de uma garrafa pet com cal dentro faz mais barulho que toda essa gente.  
         Meia-noite e meia resolvemos ir para casa e tomar a sobra da champagne. Rindo, é claro, da nossa maratona de quilômetros para ver a torre piscando por três minutos, dos franceses que usam enfeites natalinos no réveillon, da falta de fogos que faz com que as pessoas gritem mais alto ainda, mas felizes, por estarmos em Paris, por nos darmos tão bem e também por ter descoberto que o réveillon no litoral gaúcho não é tão mau assim.